Esopo 14

A andorinha e a gralha

Uma andorinha competia em beleza com uma gralha, quando esta lhe retrucou, dizendo: “Mas sua beleza floresce na estação da primavera, enquanto meu corpo continua resistente também no inverno!”.

A fábula mostra que um corpo resistente é melhor que uma bela aparência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 50

Esopo 15

A andorinha e as aves

Fazia pouco tempo que o visgo havia brotado, quando uma andorinha, percebendo o perigo iminente para os animais alados, reuniu todas as aves e aconselhou-as a podar de preferência as árvores produtoras de visgo. E, caso isso não lhes fosse possível, elas deveriam recorrer aos homens e suplicar-lhes que não usassem o visgo para apanhá-las. As aves, porém, riram da andorinha, como se estivesse dizendo bobagens. Então ela se apresentou pessoalmente aos homens como suplicante. E eles a acolheram devido à sua inteligência e dividiram com ela suas moradias. Assim, aconteceu que, enquanto as demais aves silvestres são devoradas pelos homens, só a andorinha é protegida por eles e não tem medo de fazer ninho em suas casas.

A fábula mostra que os que preveem o futuro decerto evitam os perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 51

Esopo 16

A andorinha envaidecida e a gralha

[A fábula mostra] Que os gabolas constroem, com suas falas mentirosas, recriminações para si.

A andorinha disse para a gralha: “Eu sou virgem, ateniense, princesa, filha do rei de Atenas”. E em acréscimo falou também de Tereu, do abuso sofrido e da mutilação de sua língua. Então a gralha lhe disse: “Se, apesar de mutilada, você tagarela tanto assim, o que não faria se tivesse língua?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 52

Esopo 17

O arqueiro e o leão

Quando um arqueiro experiente foi caçar no alto de uma montanha, todos os animais puseram-se em fuga, mas um leão o desafiou para uma luta. E o arqueiro, após disparar a flecha e acertar o leão, disse: “Primeiro, veja como é meu mensageiro e, depois, também eu vou atacar você”. O leão, ferido, estava prestes a fugir em disparada, quando uma raposa lhe sugeriu que tivesse calma e não fugisse, mas ele retrucou: “De jeito nenhum você vai mudar meu rumo. Se ele tem um mensageiro penetrante assim, o que farei se ele vier em pessoa me atacar?”.

[A fábula mostra] Que devemos prever o final a partir do começo e só então proteger-nos do resto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 54

Esopo 18

As árvores e a oliveira

Certa vez, as árvores se comprometeram a escolher um rei para elas e disseram à oliveira: “Seja nossa rainha”. E a oliveira respondeu: “Abrir mão do prestígio que, graças a meu óleo, o deus e também os homens me conferem, para assumir o governo das árvores?”. E disseram as árvores à figueira: “Venha ser nossa rainha”. E a figueira respondeu: “Abrir mão da doçura e da excelência de meus frutos, para assumir o governo das árvores?”. E disseram as árvores ao piracanto: “Venha ser nosso rei”. E respondeu o piracanto às árvores: “Se vocês estão de verdade me ungindo rei, venham ficar embaixo de minha sombra. Do contrário, que saia fogo do piracanto e que ele consuma os cedros-do-líbano!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 55

Esopo 19

O assassino

Um assassino pôs-se a fugir, perseguido pelos parentes da vítima. Ao chegar às margens do rio Nilo, um lobo investiu contra ele. Apavorado, subiu numa árvore e se escondeu ali, quando avistou uma serpente avançar em sua direção. Deixou-se, então, cair no rio e foi devorado por um crocodilo.

A fábula mostra que para homens malditos não há lugar seguro nem na terra, nem no ar, nem na água.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 56

Esopo 20

O astrônomo

Um astrônomo tinha o hábito de sair de casa todas as noites para observar os astros. Certa vez, perambulava pela periferia, com toda a atenção voltada para o céu, quando por descuido caiu num poço e lá ficou, gemendo e gritando. Nisso, uma pessoa que passava por ali ouviu os gemidos, aproximou-se e, ao saber do incidente, disse: “Meu caro, você se ocupa em contemplar o que há no céu e não enxerga o que está na terra?”.

Desta fábula pode servir-se qualquer pessoa em relação àqueles homens que se vangloriam do extraordinário mas não conseguem realizar o corriqueiro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 57

Esopo 21

O atum e o golfinho

Um atum estava sendo perseguido por um golfinho e escapava com muito estardalhaço. Prestes a ser apanhado, sem perceber lançou-se com um fortíssimo impulso numa praia, e o golfinho, impelido pelo mesmo impulso, projetou-se com ele. O atum se voltou e, ao ver o golfinho dando o último suspiro, disse: “Mas a mim, pelo menos, a morte não é mais penosa, pois estou vendo que junto comigo também está morrendo o causador de minha morte”.

A fábula mostra que os homens suportam com facilidade as desgraças, quando veem que os responsáveis por elas também estão padecendo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 58

Esopo 22

O ateniense devedor

Em Atenas, um devedor, ao ter sua dívida cobrada pelo credor, primeiro pôs-se a pedir-lhe um adiamento, alegando estar em dificuldade. Como não o convenceu, trouxe uma porca, a única que possuía, e, na presença dele, colocou-a à venda. Então chegou um comprador e quis saber se a porca era parideira. Ele afirmou que ela não apenas paria, mas que ainda o fazia de modo extraordinário: para as festas da deusa Deméter, paria fêmeas e, para as de Atena, machos. E, como o comprador estivesse assombrado com a resposta, o credor disse: “Mas não se espante, pois nas festas do deus Dionísio ela também vai lhe parir cabritos”.

A fábula mostra que muitos, interessados no próprio lucro, não hesitam nem mesmo em dar falso testemunho de absurdos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 59

Esopo 23

O avarento

Um avarento vendeu todos os seus bens e transformou-os numa barra de ouro. Em seguida, enterrou-a diante do muro e depois passou a ir lá constantemente examiná-la. Mas um servo seu que se encontrava nos arredores ficou atento às suas idas e vindas e, ao atinar com o que se passava, aproveitou o momento em que o patrão estava distante para desenterrar a barra e roubá-la. E o avarento, quando retornou e encontrou o buraco vazio, começou a chorar e a arrancar os cabelos. Então uma pessoa que o viu, ao saber do motivo daquele sofrimento exagerado, disse: “Não se desespere assim, companheiro! Trate de pegar uma pedra, depositá-la no mesmo lugar do ouro e fazer de conta que é seu tesouro! Ela terá, para você, a mesma serventia. Pois, quando havia o ouro, você não tirava dele nenhum proveito!”.

A fábula mostra que de nada vale a riqueza se a utilidade não a acompanha.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 60