Esopo 44

O burro que carregava sal

Um burro carregado de sal atravessava um rio quando escorregou e caiu na água. E, como o sal se dissolveu, ele se levantou mais leve e saiu todo contente. Tempos depois, estava com uma carga de esponjas quando chegou à beira de um rio e, supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito. Aconteceu, porém, que as esponjas absorveram a água e ele, sem poder levantar-se, afogou-se ali mesmo.

Assim, também, certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 88

Esopo 45

O burro que carregava uma estátua

Um homem colocou uma estátua sobre um burro e o tocou para a cidade. As pessoas que deparavam com ele faziam reverências à estátua, mas o burro, crente de que eram para ele as reverências, pôs-se a zurrar, todo empolgado, e não quis mais seguir adiante. Quando o burriqueiro atinou com o que estava acontecendo, começou a surrá-lo com o porrete, dizendo: “Ô, cabeça oca, só me faltava essa! Um burro ser reverenciado por homens!”.

A fábula mostra que as pessoas que se engradecem com bens alheios se expõem ao deboche da parte daqueles que as conhecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 89

Esopo 46

O burro que comia paliúro e a raposa

Um burro comia as folhas ásperas de paliúro; notou-o uma raposa, que lhe disse, injuriosa: “Com uma língua tão macia e assim sem pele, como você tritura e engole esse alimento rijo?”.

A fábula [convém] aos que usam a língua para proferir palavras duras e perigosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 90

Esopo 47

O burro que felicitava o cavalo

[A fábula mostra] Que não devemos invejar os ricos e os que estão no poder, mas, levando em conta que eles são alvo de inveja e de ameaças, devemos estimar a pobreza, mãe da tranquilidade.

Um burro se pôs a felicitar o cavalo, por este receber alimento e cuidados especiais, e a deplorar a si mesmo e a sua sorte, dizendo que carregava fardos pesados e recebia pouca comida, ao passo que o cavalo, adornado de rédeas e testeiras, realizava percursos leves. Ia o burro tecendo tais considerações, quando sobreveio o tempo da guerra. Foi então que o general montou com suas armas no cavalo e o tocou para o campo dos inimigos. E o cavalo, ferido por golpes de espadas, acabou jazendo agonizante. Então o burro mudou de opinião e teve pena do cavalo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 91

Esopo 48

O burro selvagem e o burro doméstico

Ao ver um burro doméstico num local bem ensolarado, um burro selvagem chegou perto e se pôs a felicitá-lo por ter um corpo vigoroso e alimento à disposição. Mais tarde, porém, ao vê-lo carregando fardos e o burriqueiro atrás dele a dar-lhe chicotadas, disse: “Eu não o felicito mais. Pois vejo que você tem fartura ao preço de grandes males!”.

Assim, não são invejáveis as vantagens alcançadas com perigos e sofrimentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 92

Esopo 49

O burro, a raposa e o leão

Um burro e uma raposa se tornaram sócios e saíram para caçar. Mas, quando toparam com um leão, a raposa, ao ver o perigo iminente, se aproximou dele e propôs entregar-lhe o burro caso ele prometesse poupá-la. Como o leão disse que iria libertá-la, a raposa induziu o burro a cair numa armadilha preparada por ela. E o leão, ao ver que o burro não podia escapar, agarrou primeiro a raposa e, em seguida, foi para cima do burro.

Assim, os que conspiram contra os sócios sem perceber também perecem muitas vezes junto com eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 93

Esopo 50

O burro, o corvo e o lobo

Um burro com uma ferida no lombo pastava num prado, quando um corvo pousou sobre ele e ficou dando bicadas na ferida. Enquanto o burro zurrava e saltava de dor, o burriqueiro, parado a uma certa distância, dava risada. Nisso, passava por ali um lobo, que, ao ver a cena, disse para si: “Pobres de nós! Se dermos uma única espiada, somos perseguidos, ao passo que o corvo ganha sorrisos”.

A fábula mostra conhecidos mesmo que os homens malfeitores são à distância.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 94

Esopo 51

O burro, o galo e o leão

Um burro e um galo estavam num estábulo, quando um leão faminto avistou o burro e viu que, se entrasse lá, poderia devorá-lo. Mas, ao ouvir o som do galo cacarejando, retraiu-se de medo – pois dizem que os leões se arrepiam com a voz dos galos –, fez meia-volta e se pôs a fugir. E o burro, todo animado a enfrentá-lo – uma vez que ele sentia medo de um galo! –, saiu do estábulo para ir em seu encalço. E, quando o burro já estava bem longe dali, o leão o devorou.

Assim, também, alguns homens, ao ver que seus inimigos estão sendo humilhados, crescem em ousadia e, sem se dar conta, são destruídos por eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 96

Esopo 52

Os burros dirigindo-se a Zeus

Fartos de carregar peso e de extenuar-se continuamente, certa vez os burros enviaram embaixadores a Zeus para pedir que ele desse um basta à fadiga. Pretendendo fazê-los ver que isso era impossível, Zeus disse que eles só se livrariam do sofrimento quando formassem um rio com a própria urina. E eles, supondo que o deus estivesse falando sério, desde aquele dia até hoje, onde quer que vejam urina de burro, param também ao redor desse local e urinam.

A fábula mostra que o destino fixado para cada um é imutável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 97

Esopo 53

A cabra e o burro

[A fábula mostra] Que quem maquina velhacarias contra outra pessoa é o principal desencadeador de seus próprios males.

Uma pessoa criava uma cabra e um burro. A cabra, que sentia inveja do burro por causa de sua ração farta, ficava dizendo: “Você tolera castigos sem fim, ora fazendo girar a moenda, ora carregando fardos”. E sugeria que ele se fingisse de epilético, caísse num buraco e lá ficasse, imóvel. Ele se deixou persuadir e caiu, quebrando-se todo. Então o dono chamou o médico e pediu ajuda. Para recobrar a saúde do burro, o médico receitou uma infusão feita com pulmão de cabra. Foi então que eles sacrificaram a cabra e medicaram o burro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 101