Esopo 64

As cadelas famintas

Cadelas famintas avistaram peles encharcadas num rio. Como não conseguiam alcançá-las, combinaram entre si que primeiramente sorveriam a água e, depois, chegariam até elas. Mas sucedeu que elas foram bebendo e estouraram antes de alcançar as peles.

Assim, alguns homens se entregam tarefas arriscadas, afoitamente a na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 118

Esopo 65

Os cães

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda. E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”.

Assim, também, as crianças preguiçosas não merecem censura, quando os pais as educam dessa maneira.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 119

Esopo 66

Os cães que estraçalhavam uma pele de leão

Uns cães encontraram uma pele de leão e puseram-se a fazê-la em pedaços. Ao vê-los, a raposa disse: “Se esse leão estivesse vivo, veriam que suas garras eram mais fortes do que os dentes de vocês”.

Essa fábula é clara para os que menosprezam as pessoas ilustres, quando elas despencam do poder e da glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 120

Esopo 67

O cão adormecido e o lobo

Um cão dormia diante de um estábulo quando um lobo o avistou e, depois de agarrá-lo, estava pronto para comê-lo, mas ele começou a implorar ao lobo que não o sacrificasse naquele momento. “Agora”, disse ele, “estou magro e mirrado. Mas meus donos estão para realizar uma festa de casamento e, se você me deixar livre agora, no futuro estarei mais gordo para você me devorar.” O lobo se convenceu e o soltou. Alguns dias depois ele voltou e encontrou o cão dormindo no alto da casa. Então ele parou e falou para o cão descer, lembrando-o do compromisso. O cão respondeu: “Mas se você, lobo, me vir dormindo de novo diante do estábulo, não mais aguarde casamento!”.

Assim, os homens sensatos, quando se safam de algum perigo, resguardam-se dele no futuro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 121

Esopo 68

O cão convidado para jantar

Um homem preparava um jantar para receber à mesa um amigo íntimo. E o cão dele chamou outro cão, dizendo: “Amigo, vem jantar aqui comigo”. Ele foi e, enquanto contemplava feliz o grande jantar, exclamava intimamente: “Uau!, que alegria inesperada me apareceu bem agora! Vou me banquetear à farta e comer tanto que amanhã não terei fome nenhuma!”. O cão dizia isso para si e, ao mesmo tempo, abanava o rabo, confiante no amigo. Mas o cozinheiro, quando viu aquele rabo se movimentando para lá e para cá, agarrou o cão pelas patas e, num átimo, o arremessou para fora, pela janela. Após o baque, ele foi embora, ganindo muito. Então um dos cães que toparam com ele no caminho perguntou: “Como foi o jantar, amigo?”. Ele respondeu: “Exagerei na bebida e fiquei tão bêbado que nem mesmo sei por onde foi que eu saí”.

A fábula mostra que não se deve baixar a guarda diante daqueles que prometem benefícios a expensas de bens alheios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 122

Esopo 69

O cão de caça

[A fábula mostra] Que não se deve, por amor ao luxo e à vanglória, atrair perigos para si, mas fugir deles.

Um cão criado em casa era adestrado para lutar contra animais ferozes. Mas, quando viu vários deles parados em fila, quebrou a coleira do pescoço e pôs-se a fugir pelas ruas. Então outros cães, vendo que ele era robusto como um touro, disseram: “Por que você está fugindo?”. Ele respondeu: “Sei que convivo com um exagero de comida e sacio meu corpo. Mas estou sempre a um passo da morte, quando luto contra ursos e leões”. Então eles comentaram entre si: “Vida boa é a nossa, ainda que pobre, pois não lutamos contra leões e nem contra ursos!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 123

Esopo 70

O cão e a lebre

Após apanhar uma lebre, um cão de caça ora lhe dava mordidas, ora lambia-lhe os lábios. Então ela, interrompendo-o, lhe disse: “Ou você para de me morder, ou para de me beijar, a fim de eu saber se sua conduta é de amigo ou de inimigo”.

Para homem ambíguo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 124

Esopo 71

O cão e o açougueiro

Um cão entrou num açougue e, enquanto o açougueiro estava ocupado, roubou um coração e escapuliu. O açougueiro se virou e disse, ao vê-lo fugir: “Mas fique você sabendo que, onde quer que esteja, irei vigiá-lo. Pois você não roubou de mim um coração; pelo contrário, agora eu tenho um, que você me deu!”.

A fábula mostra que, muitas vezes, os sofrimentos se tornam ensinamentos para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 125

Esopo 72

O cão e o caramujo

Um cão acostumado a engolir ovos, assim que viu um caramujo, escancarou a boca e o engoliu numa enorme bocada, crente de que fosse um ovo. Então, sentiu um peso nas entranhas e disse, gemendo: “É bem feito para mim, se tudo o que é redondo eu acho que é ovo”.

A fábula nos ensina que aqueles que se lançam irrefletidamente a uma tarefa mergulham, sem se dar conta, em situações inusitadas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 126

Esopo 73

O cão que perseguia um lobo

Enquanto afugentava um lobo, um cão fremia, orgulhoso, da rapidez de suas patas e de seu próprio vigor, achando que o lobo fugia devido a alguma fraqueza que lhe era peculiar. Foi então que o lobo se voltou e disse ao cão: “Não é de você que tenho medo, mas da investida de seu dono”.

Essa fábula mostra que não se deve enfunar-se com a nobreza dos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 127