Esopo 114

O corvo e o cisne

Fábula do corvo, a qual exorta a subordinar-se à natureza.

Um corvo viu um cisne e sentiu inveja de sua cor. Supondo que ele era daquela cor devido às águas em que se banhava, abandonou os altares onde encontrava alimento e passou a viver em lagos e rios. Com o banho, o corvo não mudou de cor, mas, privando-se de alimento, acabou morrendo.

O regime de vida não sabe mudar a natureza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 174

Esopo 115

A cotovia

Uma cotovia, apanhada numa armadilha, dizia lamuriosa: “Ai de mim, sou um pássaro infeliz e digno de pena! Não tirei de ninguém nem ouro, nem prata, nem outra riqueza qualquer. Mas foi uma migalha de pão, pequenina, que me trouxe a morte”.

A fábula [é oportuna] para os que enfrentam grande perigo por causa de um ganho mesquinho.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 175

Esopo 116

O criador de abelhas

Uma pessoa entrou na casa de um criador de abelhas, enquanto ele estava ausente, e furtou o mel e os favos. Quando ele voltou e viu as colmeias vazias, deteve-se para examiná-las. Nisso, as abelhas, ao retornarem da coleta, surpreenderam-no ali e dispensaram-lhe um tratamento horrendo, a golpes de ferrão. Então ele lhes disse: “Ô, bichos atrozes! Deixaram impune o ladrão de seus favos mas dão ferroadas em mim, que cuido de vocês!”.

Assim, certos homens que, por inadvertência, não se previnem contra os inimigos rechaçam os amigos, tomando-os por conspiradores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 176

Esopo 117

Diógenes e o careca

Diógenes, o filósofo cínico, ao ser insultado por um careca, revidou-lhe: “Eu não insulto você! Longe de mim tal coisa! Só estou louvando seus cabelos, que abandonaram uma cabeça miserável!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 179

Esopo 118

Diógenes viandante

Diógenes, o filósofo cínico, seguia por uma estrada, quando chegou à margem de um rio caudaloso e ali parou, sem saber o que fazer. Mas um homem que estava acostumado a atravessar a vau notou seu embaraço, aproximou-se e, com amabilidade, carregou-o para a outra margem. E lá ele ficou parado, condenando sua própria indigência, que o impedia de recompensar o benefício recebido. Estava ele ainda pensando nisso, quando o homem, ao ver outro viandante impossibilitado de atravessar o rio, veio correndo e levou-o para o outro lado. Diógenes, então, chegou perto dele e disse: “Eu já não lhe tenho mais gratidão pelo que ocorreu, pois estou vendo que você faz isso não por opção, mas por mania”.

A fábula mostra que os que beneficiam tanto os imprestáveis como as pessoas decentes merecem o rótulo de insensatos, e não de prestativos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 180

Esopo 119

O doente e o médico

Quando o médico perguntou ao doente como havia passado, ele respondeu que tinha suado mais que o normal. O médico disse: “Bom sinal!”. Mas quando, numa segunda oportunidade, o médico indagou-lhe como estava, ele respondeu que fora acometido de arrepios, seguidos de tremedeira. “Bom sinal também!”, disse o médico. E quando ele, na terceira visita, lhe fez perguntas a respeito da doença, o doente falou que estava sofrendo de diarreia. “Isso também é bom sinal!”, disse o médico, e foi embora. Então, a um parente que veio visitá-lo e lhe perguntou como estava, ele respondeu: “Eu, se quer mesmo saber, estou morrendo sob o efeito de bons sinais!”.

Assim, muitos homens são considerados venturosos pelos vizinhos, que se baseiam numa avaliação puramente exterior de coisas que eles próprios têm a maior dificuldade de suportar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 181

Esopo 120

A doninha e a lima

Uma doninha entrou na oficina de um ferreiro e se pôs a lamber uma lima que havia por lá. Aconteceu que sua língua foi se esfolando e dela passou a brotar muito sangue. A doninha, porém, se alegrou, presumindo que estivesse extraindo alguma coisa do ferro, até que, por fim, ficou sem língua.

A fábula é para aqueles que se prejudicam mutuamente em rixas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 183

Esopo 121

A doninha e Afrodite

Uma doninha se apaixonou por um rapazinho muito formoso e foi pedir a Afrodite que a transformasse em mulher. Comovida com seu sofrimento, a deusa transformou-a em bela moça. E, de fato, o rapazinho, tão logo a avistou, foi tomado de paixão e a levou para casa como sua amante. Estavam os dois em repouso no leito nupcial, quando Afrodite, desejando saber se, tendo modificado o corpo da doninha, tinha alterado também seu caráter, lançou um rato no meio do quarto. E ela, esquecida de sua atual condição, ergueu-se do leito e começou a perseguir o rato, na ânsia de devorá-lo. Então a deusa perdeu a paciência e fê-la voltar à sua antiga natureza.

Assim, também, os homens perversos por natureza, ainda que sua constituição física se altere, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 184

Esopo 122

Os escaravelhos

Numa ilhota, pastava um touro, de cujo esterco se alimentavam dois escaravelhos. Quando chegou o inverno, um deles disse ao outro que pretendia voar para o continente e lá passar o inverno; assim, o amigo ficaria sozinho e teria comida suficiente. Também disse que, se encontrasse um pasto fértil, viria trazer-lhe algumas porções. Então ele foi para o continente e lá foi ficando, alimentando-se da fartura de esterco fresquinho. Passado o inverno, voou de volta à ilha e o outro, ao vê-lo muito forte e robusto, recriminou-o por não lhe ter trazido nada, apesar das promessas. Ele respondeu: “Não censure a mim, mas à natureza do lugar, pois de lá era possível retirar comida, mas não era possível levar nada”.

Esta fábula poderia aqueles que cultivam serem convidados as amizades até casar bem com para um banquete, mas, depois disso, não têm nenhuma valia para os amigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 187

Esopo 123

A escrava feia e Afrodite

Um patrão era amante de uma escrava feia e malandra. Com as moedas de ouro que ganhava, ela se enfeitava de maneira magnífica e tentava competir com a patroa. E a todo momento oferecia sacrifícios a Afrodite, suplicando-lhe que fizesse dela uma mulher sedutora. Mas a deusa lhe apareceu em sonho e disse que não tinha gosto em torná-la bela. “Ao contrário”, continuou, “estou chateada e muito zangada com aquele homem que acha você bonita!”

[A fábula mostra] Que as pessoas que ficam ricas por meios ilícitos não devem ufanar-se, visto que, no que respeita à vergonha, elas são disformes e vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 188