Bábrio 2.139

O asno em pele de leão

Um asno estendeu sobre as ancas uma pele de leão

e presumiu que era temível para todos os homens.

Dava saltos e coices, causando a fuga dos homens

e também a fuga dos rebanhos todos.

Mas, com o sopro do vento, a pele de seu lombo 5

se despregou e ele se fez notar como asno.

E uma pessoa lhe disse, surrando-o com o porrete:

“Nasceste asno, não imites leão.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 2.140

A cigarra e a formiga

No inverno uma formiga arrastava de dentro da toca

o trigo para arejar, que ela havia estocado no verão.

Então uma cigarra faminta pôs-se a suplicar-lhe

que lhe desse algum alimento, para continuar viva.

“Ora, o que estiveste fazendo”, disse, “nesse verão?” 5

“Não estive à toa. Ao contrário, passei o tempo todo a cantar.”

A rir a formiga vai guardando no interior o trigo

e diz: “Se flauteaste no verão, dança no inverno!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 2.143

O lavrador e a víbora

Uma víbora que estava morrendo por causa do frio

um lavrador acolheu e pôs-se a aquecê-la. Agarrada

à sua mão ela se estirou e, dando-lhe uma picada fatal,

matou justamente aquele que queria fazê-la reviver.

Ao morrer, ele disse uma frase digna de recordação: 5

“Sofro o merecido por ter-me condoído de um malvado.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 5.1

O rei Demétrio e o poeta Menandro.

Demétrio que foi chamado de Falério

apoderou-se de Atenas com um governo tirânico.

O povo, como de costume, irrompe de todo lado e à porfia,

gritando “Viva!”. Até mesmo os mais notáveis

beijam aquela mão, pela qual foram oprimidos, 5

lamentando, em silêncio, a triste vicissitude da fortuna.

Também os preguiçosos e os que buscam o ócio

se arrastam por último para a ausência não lhes causar dano;

entre esses, Menandro, famoso por suas comédias

que Demétrio, não o conhecendo pessoalmente, tinha lido 10

e tinha admirado o talento do homem;

untado de perfume, esvoaçando suas vestes,

ele vinha com passo delicado e malemolente.

Quando o tirano o viu no fim da fila:

“Quem é aquele bicha que se atreve a vir 15

à minha presença?” Responderam os mais próximos:

“Este é o escritor Menandro”. Mudado imediatamente,

disse: “Impossível existir um homem mais formoso”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.2

Os viajantes e o ladrão

Como dois soldados tivessem deparado com um ladrão,

um fugiu, o outro, porém, ficou

e se defendeu com sua forte destra.

Derrubado o ladrão, o companheiro medroso acorre

e saca da espada; em seguida, jogando a capa para trás, 5

diz: “Deixa comigo; já cuidarei que ele sinta

com quem se meteu”. Aí, o que tinha lutado:

“Quisera eu que, ao menos, me tivesses ajudado com essas palavras;

eu teria sido mais resoluto, julgando-as verdadeiras.

Agora guarda tua espada e tua língua igualmente inúteis. 10

Que possas enganar os outros que te desconhecem;

eu, que constatei com quanto empenho foges,

sei o quanto não se deve acreditar em teu valor”.

Esta história deve ser aplicada àquele

que, numa situação favorável, é valente, numa incerta, é covarde. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.