Esopo 194

O lavrador e o Acaso

Um lavrador encontrou ouro na terra que cultivava e começou a oferecer coroas à Terra diariamente, como se ela é que fosse sua benfeitora. Veio, então, o Acaso e lhe disse: “Meu caro, por que você atribui à Terra as minhas dádivas, justo essas que eu lhe concedi por desejar que você ficasse rico? Se os tempos mudarem e esse ouro for gasto em outras necessidades, você não irá recriminar a Terra, e sim o Acaso!”.

A fábula nos ensina que precisamos reconhecer o benfeitor e demonstrar-lhe gratidão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 289

Esopo 195

O lavrador e o arbusto

[A fábula mostra] Que, por natureza, os homens não amam e honram tanto a justiça, como se animam a perseguir o lucro.

Nas terras de um lavrador havia um arbusto que não produzia frutos e só servia de abrigo a pardais e cigarras estridentes. Como não dava frutos, o lavrador ia cortá-lo. E, assim que pegou o machado e desferiu o golpe, as cigarras e os pardais puseram-se a suplicar-lhe que não abatesse o refúgio deles, mas que o deixasse, para que nele cantassem, proporcionando alegrias a você, lavrador! Mas este, sem a menor preocupação, desferiu um segundo golpe, e ainda um terceiro. Ao esburacar o arbusto, encontrou um enxame de abelhas e mel. E, depois de saboreá-lo, jogou fora o machado e honrou a planta como coisa sagrada, passando a cuidar dela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 290

Esopo 196

O lavrador e o lobo

Um lavrador desatrelou sua junta de bois e levou-a para beber água. Nisso, um lobo faminto, que estava à procura de comida, topou com o arado, começou a lamber o jugo dos bois e, aos poucos, sem se dar conta, acabou enfiando o pescoço nele. Em seguida tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e foi arrastando o arado pela plantação. E o lavrador, quando retornou, disse, ao vê-lo: “Ó, cabeça malvada, quem dera você abandonasse as pilhagens e os danos e pendesse para a lavoura!”.

Assim, os homens perversos, ainda que alardeiem ações utilíssimas, não merecem crédito devido a seu caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 291

Esopo 197

O lavrador e os cães

Um lavrador ficou detido no estábulo por causa de uma tempestade e, sem poder sair para arranjar alimento, comeu primeiro os cordeiros. E, como a tempestade ainda persistisse, num segundo momento devorou também as cabras. E, como não ocorresse nenhuma estiada, numa terceira vez avançou sobre os bois de arado também. Então os cães, que observavam os acontecimentos, disseram entre si: “Precisamos dar o fora daqui, pois se o patrão não se absteve nem mesmo dos bois, seus colaboradores, como é que vai nos poupar?”.

A fábula ensina que é preciso ter muita cautela com as pessoas que tratam injustamente seus conhecidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 292

Esopo 198

O lavrador e seus filhos

Um lavrador à beira da morte desejava que seus filhos adquirissem experiência na lavoura. Chamou-os, então, para junto de si e disse: “Meus filhos, numa de minhas vinhas há um tesouro”. Logo depois que o pai faleceu, eles pegaram os forcados e as charruas e revolveram toda a plantação. Tesouro, na verdade, não encontraram, mas a vinha lhes deu em recompensa múltiplas cargas de frutos.

A fábula mostra que o trabalho é um tesouro para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 293

Esopo 199

O lavrador e seus filhos que viviam em discórdia

Um lavrador tinha filhos que viviam em discórdia e, apesar de seus muitos conselhos, não conseguia persuadi-los só com palavras a mudar de comportamento. Então concluiu que era preciso fazê-lo por meio de uma ação. Assim, propôs que eles trouxessem um fardo de lenha. Realizada essa tarefa, o lavrador lhes deu, primeiro, o fardo amarrado e ordenou que o quebrassem, mas eles não conseguiram quebrá-lo, apesar de todo o esforço que fizeram. Em seguida, ele desamarrou o fardo e foi lhes entregando um galho por vez, que eles iam quebrando sem dificuldade. E disse-lhes, depois: “Pois é. Assim, também vocês, meus filhos, se permanecerem amigos, serão invencíveis para os inimigos. Mas, se viverem em discórdia, serão presas fáceis”.

A fábula mostra que mais forte quanto a concórdia é tão facílima de vencer é a discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 294

Esopo 200

O leão doente, o lobo e a raposa

Um velho leão jazia doente estirado numa gruta. Todos os animais fizeram uma visita ao rei, menos a raposa. Foi então que o lobo aproveitou a chance de denunciá-la ao leão, dizendo que ela não tinha a menor consideração por aquele que exercia a autoridade sobre todos os animais e, por isso, não vinha visitá-lo. Mas, justo nesse momento, foi chegando a raposa, que ouviu as palavras finais do lobo. O leão, por conseguinte, começou a rugir para ela. A raposa, no entanto, pediu uma oportunidade de defesa e disse: “E, dentre esses que se reuniram aqui, quem foi que se preocupou com você tanto quanto eu, que andei por toda parte procurando saber dos médicos um tratamento para você e acabei encontrando?”. E, como o leão a mandasse dizer sem demora qual era o tratamento, ela falou: “É só esfolar um lobo vivo e envolver-se com a pele dele ainda quente”. E o lobo, imediatamente, jazeu morto. Então a raposa disse, a rir: “Assim, não se deve instigar o chefe à hostilidade, mas à benevolência!”.

A fábula mostra que aquele que maquina contra os outros reverte para si próprio a maquinação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 295

Esopo 201

O leão e a lebre

Um leão deparou com uma lebre a dormir, e estava prestes a devorá-la quando avistou uma corça passando por ali. Pôs-se, então, a persegui-la, deixando de lado a lebre, que despertou com o tropel e fugiu. E o leão, depois de muito correr atrás da corça, sem no entanto conseguir apanhá-la, voltou para atacar a lebre. Mas, ao ver que ela havia fugido, disse: “Mas é bem-feito para mim, pois abandonei o repasto que tinha em mãos para dar prioridade à expectativa de um melhor”.

Assim, alguns homens, não ganhos modestos, satisfeitos com vão atrás de expectativas melhores e, sem notar, desperdiçam os que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 296

Esopo 202

O leão e a rã

Ao ouvir o coaxar de uma rã, um leão se voltou para aquele barulho, crente de que se tratava de um animal de grande porte. Então, aguardou algum tempo e, quando a viu saindo do brejo, chegou perto e esmagou-a, dizendo: “Que o ouvir não abale ninguém antes do ver”.

Para homem de eloquência doentia, que só consegue tagarelar, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 297

Esopo 203

O leão e o burro que foram juntos à caça

Um leão e um burro se tornaram sócios e foram caçar. Ao chegarem a uma gruta onde havia cabras selvagens, o leão estacou na entrada para vigiar as que iam sair, enquanto o burro entrou e, lançando-se entre elas, começou a zurrar, pretendendo espantá-las para fora. E, depois que o leão havia apanhado quase todas, o burro saiu e quis saber do leão se ele havia lutado bravamente e afugentado direito as cabras. Então o leão respondeu: “Mas tenha certeza de que até eu teria ficado com medo, se não soubesse que você é um burro!”.

Assim, os que se vangloriam diante de quem os conhece expõem-se ao riso inevitavelmente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 298