Esopo 204

O leão e o golfinho

Enquanto zanzava por uma praia, um leão viu assomar fora da água a cabeça de um golfinho e, então, convidou-o para uma aliança de guerra, dizendo que era uma combinação perfeita eles serem amigos e aliados, pois, enquanto um era o rei dos animais marinhos, ele próprio reinava sobre os animais terrestres. De bom grado, o golfinho concordou. E o leão, que havia muito tempo estava em guerra contra um touro selvagem, chamou o golfinho em seu socorro. E como ele, mesmo querendo, não conseguia sair do mar, o leão o acusou de traidor. O golfinho, então, respondeu: “Não faça censuras a mim, mas à natureza, pois foi ela que, ao me fazer marinho, não me deixa andar em terra firme”.

Pois é. Portanto, também nós, que selamos pactos de amizade, devemos escolher como aliados aqueles que possam, nos perigos, estar junto de nós.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 299

Esopo 205

O leão e o javali

[A fábula mostra] Que é belo desfazer as querelas nocivas e as rivalidades, visto que elas acabam em danos para todo mundo.

No verão, quando o calor intensifica a sede, numa pequena fonte vieram beber um leão e um javali. Os dois começaram a discutir para ver quem beberia primeiro e, a partir da discussão, se animaram a travar um duelo mortal. De repente, porém, ao recuarem para tomar fôlego, viram abutres só esperando que um deles tombasse, para comê-lo. Por isso, puseram fim às hostilidades, dizendo: “É melhor nos tornarmos amigos do que banquete para abutres e corvos”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 301

Esopo 206

O leão e o onagro

Um leão e um onagro estavam caçando bichos, o leão recorrendo à sua força e o onagro, à rapidez de suas patas. Assim que caçaram alguns, o leão se pôs a fazer a partilha e separou três partes, dizendo: “A primeira eu vou pegar porque tenho prioridade, afinal, sou o rei. A segunda eu vou pegar porque sou seu sócio, com direitos iguais. E essa, a terceira, vai lhe causar um grande mal se você não quiser fugir”.

[A fábula mostra] que o bom é medir-se em tudo segundo a própria força, e não se juntar nem fazer sociedade com os mais poderosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 302

Esopo 207

O leão e o rato agradecido

Enquanto um leão dormia, um rato passeava pelo seu corpo. Nisso, ele despertou e o agarrou, e já ia devorá-lo, quando o rato começou a pedir que o soltasse, dizendo que, se o deixasse são e salvo, iria retribuir-lhe esse favor. O leão desandou a rir e soltou-o. Aconteceu, porém, que não demorou muito para ele ser salvo pela gratidão do rato. Tendo sido apanhado por caçadores, o leão foi amarrado com uma corda a uma árvore. Nesse instante o rato ouviu os gemidos dele, foi até lá e roeu a corda. E disse, após libertá-lo: “Certa vez você caçoou de mim porque não contava receber de minha parte uma recompensa. Agora, porém, esteja certo de que também entre os ratos há gratidão!”.

A fábula mostra que as situações mudam e os muito poderosos passam a precisar dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 303

Esopo 208

O leão e o touro

Um leão que tramava contra um touro enorme quis dominá-lo por meio de um ardil. Então, contou-lhe que havia imolado um cordeiro e convidou-o para a refeição, pretendendo dar cabo dele quando estivesse refestelado à mesa. O touro veio e, quando viu vários caldeirões e grandes espetos, mas nada de cordeiro, foi saindo calado. Foi então que o leão se pôs a repreendê-lo e a perguntar-lhe por que motivo ele, que não tinha sido maltratado, estava saindo em silêncio. E o touro respondeu: “Mas não é sem razão que estou fazendo isso! É que estou vendo utensílios preparados não para um cordeiro, mas para um touro”.

A fábula mostra que aos homens prudentes não passam despercebidos os artifícios dos malvados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 304

Esopo 209

O leão e o urso

Um leão e um urso encontraram um filhote de veado e puseram-se a brigar por causa dele. E se agrediram com tal violência que logo sentiram vertigens e caíram prostrados. Então uma raposa que estava chegando ali, ao vê-los inertes, agarrou o filhote, que jazia entre eles, e saiu por entre os dois. E eles, sem condições de levantar, disseram: “Como somos miseráveis! Estávamos nos matando em proveito de uma raposa!”.

A fábula mostra que sofrem com razão as pessoas que veem os frutos obtidos de seus próprios esforços serem levados pelo primeiro que aparece.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 305

Esopo 210

O leão enamorado

Um leão enamorou-se da filha de um lavrador e foi pedi-la em casamento. E o lavrador, que não suportava a ideia de entregar a filha a uma fera e, por medo, também não conseguia dizer não, fez o seguinte. Visto que o leão insistia em pressioná-lo, ele disse que o reputava um noivo digno de sua filha, mas não podia conceder-lhe sua mão, a menos que ele extraísse as presas e aparasse as garras, que amedrontavam a mocinha. O leão, por amor, sujeitou-se com facilidade a todas as exigências e o lavrador, já sem nenhum receio dele, escorraçou-o a porretadas quando ele veio à sua casa.

A fábula mostra que aqueles que se fiam mais nem menos no próximo sem aceitam abrir mão de seus privilégios específicos e, depois, se tornam presas fáceis daqueles que anteriormente os temiam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 306

Esopo 211

O leão furioso e o veado

Ao avistar, da floresta, um leão em acesso de fúria, um veado disse: “Aiaiai! Pobres de nós! O que não fará esse aí, enfurecido assim, se já era insuportável quando estava em pleno juízo?!”.

[A fábula aconselha] Que todos se mantenham afastados dos homens de ânimo alterado e acostumados a fazer o mal, quando eles ocupam o poder e se tornam chefes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 307

Esopo 212

O leão, o burro e a raposa

Um leão, um burro e uma raposa fizeram entre si uma sociedade e foram caçar. Assim que apanharam uma boa quantia de presas, o leão determinou que o burro lhes fizesse a partilha. Então ele fez três partes iguais e convidou-o para escolher uma. Enfurecido, o leão saltou sobre ele, devorou-o e, depois, determinou que a raposa fizesse a divisão. Ela ajuntou tudo num único monte, reservando para si uma pequena porção, e convidou o leão a fazer a escolha. E, quando o leão lhe perguntou quem é que a ensinara a repartir daquele modo, a raposa respondeu: “A desgraça do burro!”.

A fábula mostra que os infortúnios do próximo se tornam, para os homens, fonte de sabedoria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 308

Esopo 213

O leão, a raposa e a corça

Um leão, que jazia doente em uma caverna, disse à estimada raposa, com quem mantinha convívio: “Se você me quer vivo e saudável, ludibrie com palavras a maior corça que vive na floresta, faça com que ela venha às minhas mãos, pois ela tem um coração e entranhas que despertam o meu apetite”. A raposa se foi e, ao encontrar a corça a saltitar na floresta, saudou-a efusivamente e, em seguida, lhe disse: “Vim trazer boas novas! Você sabe que o leão, nosso rei, é meu vizinho. Ele está doente, moribundo, e se pôs a considerar sobre qual dos animais iria sucedê-lo. O javali é sem juízo”, afirmava ele, “o urso, balofo, a pantera, ranzinza, o tigre, fanfarrão. A corça é a mais digna da realeza, porque tem porte altivo, vida longa e um chifre que intimida as serpentes. Bom, mais delongas para quê? Por decisão dele, você assumirá o reinado! E eu, que recompensa vou ganhar por ter-lhe dado essa notícia em primeira mão? Vamos, prometa-me alguma coisa. Estou com pressa, não vá ele sentir a minha falta! Ele me tem como conselheira para tudo. Se você quer ouvir a mim, que sou velha, o meu conselho é que você venha também e aguarde junto do moribundo”. Assim disse a raposa. Com essas palavras, a corça ficou toda cheia de si e foi à caverna, ignorando o que ia acontecer. O leão, então, lançou impetuoso suas garras sobre ela, dilacerando-lhe somente as orelhas, pois a corça tratou de fugir rapidamente para a floresta. Enquanto a raposa dava murros porque havia feito esforços em vão, o leão gemia, entre fortes rugidos, pois a fome e o desgosto o dominavam. Então ele suplicou à raposa que fizesse uma segunda tentativa para trazer a corça novamente, por meio de um ardil. “A tarefa que você me atribui é difícil e penosa. Contudo, vou lhe dar esse apoio”, disse a raposa. Assim, como um cão farejador, saiu à procura da corça e foi tramando trapaças rumo à floresta, seguindo a indicação de uns pastores, a quem ela perguntou se tinham visto uma corça sangrando. A raposa a encontrou esbaforida e parou diante dela com a maior cara de pau. Indignada, a corça arrepiou o pelo e disse: “Nunca mais você me pega, sua peste! E se chegar perto de mim, não sairá viva! Vá raposinhar com outros, inexperientes, estimulando-os a se tornarem reis!”. A raposa rebateu: “Você é tão frágil e covarde assim, que desconfia de nós, seus amigos? O leão, quando agarrou sua orelha, ia dar conselhos e recomendações a respeito desse cargo tão importante, porque ele está morrendo! E você não tolerou nem mesmo um arranhão da pata de um enfermo! Agora a indignação dele é muito maior que a sua, e ele pretende tornar rei o lobo. Ai de mim, um senhor malvado! Mas venha, não se deixe sugestionar por nada, comporte-se como um cordeiro. Juro por todas as folhas e fontes que não sofrerá nenhum mal da parte do leão. Quanto a mim, quero apenas o seu bem”. Com tais ludíbrios, a raposa convenceu a medrosa a acompanhá-la uma segunda vez. E quando a corça adentrou a caverna, o leão agarrou a sua janta e se pôs a comer os ossos todos, o tutano e as entranhas. A raposa ficou parada, observando. Nisso cai o coração da corça e a raposa sorrateiramente o apanha e devora, como prêmio de seu empenho. E quando percebeu que o leão farejava todas as partes mas não achava o coração, ela, postada à distância, lhe disse: “A bem da verdade, essa fulana aí não tinha coração. Nem adianta procurar! Que espécie de coração teria ela, que veio ter por duas vezes à morada e às mãos de um leão?”.

[A fábula mostra] Que o amor pelas honrarias turva a mente humana e subestima as consequências dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 309-311