Esopo 224

As lebres e as rãs

Cientes da própria covardia, as lebres concluíram que deviam se jogar de um precipício e, então, rumaram para o topo de uma ribanceira, que ia dar num brejo. E as rãs desse brejo, tão logo ouviram o tropel das lebres, se mandaram para o fundo da água. Foi então que uma das lebres as viu fazendo isso e disse para as demais: “Nada de nos lançarmos nessa fundura! Pois acabamos de descobrir que existem animais bem mais covardes do que nós!”.

Assim, também, para os homens, as desgraças alheias se tornam consolo para as infelicidades pessoais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 325

Esopo 225

O leitão e os cordeiros

Um leitão se meteu num rebanho de cordeiros e ali ficou pastando. Mas um dia, o pastor o agarrou e ele se pôs a berrar e a espernear. Então os cordeiros lhe chamaram a atenção, por causa de seus berros, dizendo: “Ele nos agarra constantemente e nós não gritamos!”. Ele respondeu: “Mas ele me agarra diferente! Ele cerca vocês por causa da lã ou do leite, mas de mim ele quer a carne!”.

A fábula mostra que têm razão de chiar aqueles que veem ameaçadas não suas posses, mas suas vidas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 326

Esopo 226

O lenhador e Hermes

Um homem estava cortando lenha às margens de um rio, quando deixou cair na água seu machado, que foi levado pela correnteza. Sentado no barranco, ele ficou a chorar, até que Hermes se compadeceu, foi até lá e, ao saber do motivo de seu pranto, desceu no rio e voltou com um machado de ouro. Logo após, o deus lhe perguntou se aquele era seu machado, mas ele disse que não, que não era aquele. Na segunda vez, Hermes trouxe um machado de prata e perguntou se era aquele que o lenhador tinha deixado cair no rio. E, como ele negou que fosse aquele, Hermes lhe trouxe, na terceira vez, o machado dele, que o homem reconheceu que era mesmo o seu. Impressionado com sua honestidade, Hermes lhe deu de presente todos os três machados. O lenhador aceitou os presentes e, mais tarde, quando foi ter com seus companheiros, contou-lhes detalhadamente o sucedido. Então um deles, que estava de olho grande nessa história, decidiu viver a mesma experiência: pegou um machado, foi à beira do mesmo rio e, enquanto cortava lenha, deixou de propósito cair o machado na correnteza. Depois, sentou-se a chorar. E, quando Hermes apareceu e lhe perguntou o que havia ocorrido, ele citou a perda do machado. Mas, assim que Hermes retirou do rio um machado de ouro e lhe perguntou se era aquele que ele havia perdido, o homem, de olho no lucro, mais do que depressa falou que era aquele. O deus, porém, não o recompensou e também não lhe entregou o que lhe pertencia.

A fábula mostra que a divindade ampara os justos tanto quanto hostiliza os injustos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 327-328

Esopo 227

O lobo e a cabra

Um lobo viu uma cabra pastando no alto de uma escarpa e, como não conseguisse atacá-la, falou-lhe para descer um pouco mais – não fosse ela cair por descuido! – e disse que onde ele estava o prado era melhor, principalmente porque a relva estava bem viçosa. E ela respondeu: “Mas não é por causa do pasto que você está me chamando. É que você mesmo não tem o que comer!”.

Assim, também, os homens malfeitores, quando praticam maldade perto de quem os conhece, não tiram proveito de seus artifícios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 329

Esopo 228

O lobo e a garça

Engasgado com um osso, um lobo andava à procura de alguém que o curasse. Ao deparar com uma garça, propôs a ela que lhe retirasse o osso, mediante um pagamento. Então a garça enfiou a cabeça na garganta dele, extraiu o osso e, depois, exigiu o pagamento combinado. E ele respondeu: “Mas você, minha cara, não satisfeita de ter retirado incólume sua cabeça da goela de um lobo, ainda exige pagamento?”.

A fábula mostra que a maior recompensa de uma ação praticada em benefício dos perversos é não receber deles, em retribuição, uma crueldade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 331

Esopo 229

O lobo e a ovelha

Um lobo já estava saciado de comida, quando viu uma ovelha estirada ao chão. Ao notar que ela havia caído por medo dele, chegou perto e se pôs a encorajá-la, dizendo que a deixaria livre se ela dissesse três sentenças verdadeiras. Então ela começou dizendo, em primeiro lugar, que não desejara encontrá-lo. E, em segundo, disse que, visto seu desejo ter-se frustrado, queria tê-lo encontrado cego. E acrescentou a terceira: “Tomara que todos os lobos morram de morte cruel, pois vocês, malvados, nos fazem guerra, apesar de não lhes fazermos nenhum mal”. E o lobo, reconhecendo que ela não mentia, libertou-a.

A fábula mostra que, muitas vezes, a verdade tem força até junto dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 332

Esopo 230

O lobo e a velha

Um lobo faminto zanzava à procura de comida. Ao chegar numa estalagem, ouviu uma criança choramingando e uma velha dizendo, em tom de ameaça: “Pare de chorar, senão vou jogar você para o lobo!”. E o lobo, crente de que a velha falava sério, parou e ficou à espera. A tarde caiu e o lobo, ao ver que nada se seguia àquelas palavras, foi embora, dizendo para si: “Nessa estalagem, as pessoas falam uma coisa mas fazem outra!”.

Esta fábula cairia bem para aqueles homens cujas ações não se coadunam com suas palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 333

Esopo 231

O lobo e o cão

Ao ver um cão enorme preso na coleira, um lobo perguntou: “Quem foi que prendeu você e lhe deu tanta comida?”. E o cão: “Um caçador”. E o lobo: “Tomara que não aconteça uma coisa dessas com um lobo que é amigo meu! A fome é mais leve que a coleira!”.

A fábula mostra que, nas desventuras, nem o estômago sente prazer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 334

Esopo 232

O lobo e o cavalo

Ao caminhar por uma plantação, um lobo encontrou cevada, mas, como não podia usá-la como alimento, abandonou-a. Estava indo embora, quando encontrou um cavalo. Então o lobo tentou conduzi-lo até a plantação, dizendo que tinha encontrado cevada, mas não a comera, pois a deixara reservada para ele, sobretudo porque sentia prazer em ouvir o barulho de seus dentes. E o cavalo disse, em resposta: “Mas se lobos pudessem se alimentar de cevada, você jamais teria posto as orelhas na frente do estômago!”.

A fábula mostra que os perversos por natureza não merecem confiança, mesmo que façam alarde de boas intenções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 335

Esopo 233

O lobo e o cordeiro

Um lobo viu um cordeiro bebendo água de um rio e desejou devorá-lo com um pretexto bem articulado. Assim, postou-se mais acima e começou a recriminá-lo, dizendo que ele estava turvando a água e impedindo-o de beber. O cordeiro respondeu que bebia com a ponta dos lábios e que, de mais a mais, não podia ser que ele, que estava abaixo, estivesse turvando a água do lado de cima. E o lobo, fracassando nessa acusação, disse: “Mas no ano passado você injuriou meu pai!”. E, como o cordeiro revidou que naquela época ele ainda não tinha um ano de vida, o lobo lhe disse: “Ora, se suas defesas forem bem-sucedidas, eu não vou comer você!”.

A fábula mostra que, junto daqueles cujo propósito é praticar a injustiça, nenhuma defesa justa tem valor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 336