Esopo 254

O menino e o corvo

Uma mulher foi consultar o oráculo a respeito de seu filho, que ainda era um bebê, e os adivinhos lhe predisseram que ele iria ser morto por um corvo. Apavorada, ela preparou uma arca bem grande e nela trancafiou o menino, atentando para que ele não fosse morto por um corvo. E assim foi levando a vida, abrindo a arca nas horas certas, para lhe oferecer o alimento necessário. Mas, certa vez, ela abriu a arca e, quando foi recolocar a tampa, o menino, inesperadamente, pôs a cabeça para fora. E foi assim que o ferrolho da tampa, o qual era em forma de corvo, despencou sobre a cabeça dele, matando-o.

A fábula mostra que o desígnio do destino é irrevogável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 364

Esopo 255

O menino e o escorpião

Um menino estava caçando gafanhotos ao pé da muralha. Já havia catado vários quando avistou um escorpião e, crente de que fosse um gafanhoto, preparou-se para apanhá-lo com a mão em concha. Mas o escorpião arrebitou o ferrão e disse: “Ah, se você tivesse feito isso! Teria perdido até os gafanhotos que catou!”.

Esta fábula nos ensina que não devemos nos comportar da mesma forma com todo mundo, com os bons e com os maus.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 365

Esopo 256

O menino e o leão desenhado

[A fábula mostra] Que a pessoa deve suportar com coragem e sem subterfúgios aquilo que o destino lhe reserva, pois dele não pode escapar.

Um homem velho e medroso, pai de um único filho corajoso e afeiçoado à caça, viu, em sonho, esse filho ser morto por um leão. Temendo que fosse uma visão e que o sonho se mostrasse verídico, construiu um belíssimo aposento suspenso e lá manteve o filho protegido. E, para contentá-lo, também decorou o aposento com pinturas de animais de todas as espécies, entre os quais o desenho de um leão. O rapaz, contudo, quanto mais os contemplava, mais se enchia de dor. E, certa vez, parou diante do leão e disse: “Ô, fera terrível, por culpa sua e do sonho falso de meu pai estou encerrado numa prisão de mulher! O que devo fazer com você?”. Ao dizer isso, deu um murro contra a parede, no intuito de cegar o leão. Foi então que uma farpa de madeira penetrou sob sua unha e provocou uma dor aguda e uma inflamação, que virou um tumor. Disso resultou uma febre alta, que fez o rapaz deixar a vida bem rápido. Assim, de nada lhe adiantou o artifício de seu pai, uma vez que o leão, embora fosse um mero desenho, acabou matando-o.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 366-367

Esopo 257

O menino ladrão e sua mãe

Um menino roubou, na escola, a lousinha de seu colega de classe e levou-a para sua mãe. E ela não o repreendeu; ao contrário, até o elogiou. Então, numa segunda oportunidade, ele roubou um manto e levou-o para a mãe. E, mais uma vez, ela o aceitou. O tempo foi passando e o menino foi crescendo e, quando se tornou um rapaz, já estava empreendendo roubos mais vultosos. Certa vez, porém, apanharam-no em flagrante e, enquanto o levavam, de mãos amarradas, para o carrasco, a mãe seguia atrás, esmurrando o próprio peito. Foi então que o rapaz pediu: “Eu queria falar uma coisa no ouvido de minha mãe”. Ela, mais do que depressa, se achegou a ele, que, com uma mordida, lhe arrancou a orelha. E, quando ela se pôs a recriminar sua impiedade, ele disse: “Se você tivesse me dado uma surra naquele dia em que eu lhe trouxe aquela primeira lousinha que roubei, eu não teria chegado a esse ponto de ser conduzido à morte”.

A fábula mostra que o que não se reprime no início aumenta cada vez mais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 368

Esopo 258

O menino que estava tomando banho no rio

Certa vez um menino tomava banho no rio e estava quase se afogando, quando viu um viandante e o chamou em socorro. Ele, porém, repreendeu o menino, por seu comportamento abusado. Então o rapazinho lhe disse: “Mas, agora, trate de salvar-me e, depois, quando eu estiver a salvo, repreenda-me!”.

A fábula vale para aqueles que dão pretexto para receber tratamento injusto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 369

Esopo 259

O milhafre e a serpente

Um milhafre pilhou uma serpente e saiu voando. Ela, no entanto, se voltou e lhe deu uma picada. Ambos despencaram do alto. O milhafre estava morto, mas a serpente lhe disse: “Que loucura foi essa? Você quis prejudicar os que não lhe fazem nenhum mal? Contudo você recebeu, pelo rapto, uma justa punição!”.

[A fábula mostra] Que uma pessoa que se entrega à cobiça e comete injustiça contra os mais fracos, quando menos espera, lança-se contra um mais forte e, então, pagará também os males que praticou anteriormente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 370

Esopo 260

Os milhafres e os cisnes

Fábula dos milhafres e dos cisnes, que exorta a não se tentar imitar o descabido.

Tal qual o canto dos cisnes era aquele que a natureza, nos primórdios, havia destinado aos milhafres. Mas eles, quando ouviram os relinchos dos cavalos, caíram de amores por aquela voz. E, como se puseram a tentar imitá-la, acabaram ficando sem aquela que possuíam, pois deixaram de exercitá-la. Portanto, não aprenderam a relinchar e desaprenderam de cantar.

Leva à perda daquilo que já se possui quando se imita aquilo que é descabido.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 371

Esopo 261

O morcego e as doninhas

Um morcego caiu no chão e foi apanhado por uma doninha. Quando viu que estava para ser morto, pediu por favor que ela o poupasse. Mas, como ela respondeu que não podia soltá-lo, inimiga que era por natureza de todos os pássaros, ele disse que não era passarinho, e sim rato. Dessa maneira, safou-se. Tempos depois ele tornou a cair e, ao ser apanhado por outra doninha, pediu que o soltasse. E como ela lhe respondeu que tinha bronca de todos os ratos, ele disse que não era rato, e sim morcego. E escapou de novo. E foi assim que, trocando de nome, ele se salvou duas vezes.

Pois é. Portanto, também nós não devemos persistir sempre nas mesmas atitudes, considerando que aqueles que se adaptam às situações escapam muitas vezes de sérios perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 372

Esopo 262

O morcego, a sarça e a gaivota

Um morcego, uma sarça e uma gaivota formaram uma sociedade e decidiram dedicar-se ao comércio. Assim, o morcego tomou dinheiro emprestado e depositou-o num fundo comum; a sarça trouxe vestes grudadas em si e a terceira sócia, a gaivota, comprou cobre e embarcou-o num navio. E então puseram-se ao mar. Mas veio uma violenta tempestade e o navio foi a pique. E eles, embora tivessem perdido tudo, alcançaram a terra, sãos e salvos. Desde então, a gaivota mergulha fundo, presumindo que um dia encontrará o cobre. O morcego, por sua vez, não aparece de dia, com medo dos credores, e só sai à noite para caçar. E a sarça vive à procura de suas vestes e, para tentar reconhecê-las, se gruda nos mantos de quem passa perto dela.

A fábula mostra que damos mais importância para as coisas que estão vinculadas a nossos fracassos anteriores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 373

Esopo 263

A mosca

Uma mosca caiu numa panela de carne e estava para se afogar no caldo quando disse para si: “Mas pelo menos eu comi, bebi e estou de banho tomado. Se eu morrer, pouco me importa!”.

A fábula mostra que os homens suportam bem a morte quando ela se aproxima sem tortura.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 374