Esopo 264

As moscas

Um enxame de moscas voejava numa despensa e comia do mel que transbordava. E por causa da doçura do alimento elas não se afastavam dali, até que ficaram com as patas grudadas e, sem conseguir alçar voo, foram se afogando no mel, dizendo: “Coitadas de nós, que estamos morrendo por causa de um pequeno prazer”.

Assim, para muitos, a gulodice é causa de muitos males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 376

Esopo 265

A mosquito e o leão

Um mosquito chegou para um leão e disse: “Eu não tenho medo de você, nem você é mais forte do que eu. Senão, que força tem você? Só porque arranha com essas garras e morde com esses dentes? Isso até uma mulher faz quando briga com o marido! Eu, sim, sou muito, mas muito mais forte que você. E, se quiser, vamos ao combate!”. E o mosquito fez soar a trombeta e investiu contra ele, picando sua cara sem pelo, ao redor das narinas. E o leão, tentando afastá-lo, se feria com suas próprias garras, até que acabou se rendendo. Então o mosquito, tendo vencido o leão, fez soar a trombeta, entoou um epinício, um canto de vitória, e ficou voando. E, depois, chocou-se com uma teia de aranha. Então, ao ser devorado, lastimou que ele, que lutava com animais enormes, estava sendo morto por um reles bicho como a aranha.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 377

Esopo 266

O mosquito e o touro

Um mosquito pousou no chifre de um touro e lá ficou parado por um bom tempo. Quando estava para ir embora, perguntou ao touro se era de seu agrado que ele se fosse. Então o touro respondeu: “Mas nem notei quando você chegou, e tampouco vou notar se você for embora”.

Esta fábula uma pessoa poderia usar para um homem imprestável, cuja presença ou ausência nem ajuda nem atrapalha.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 379

Esopo 267

A mula

Uma mula se empanturrou de cevada e, em seguida, se pôs a saltar, enquanto dizia para si bem alto: “Meu pai é um cavalo, rápido na corrida, e eu sou parecida com ele em tudo”. Veio, porém, o dia em que a necessidade obrigou a mula a correr. E quando a corrida chegou ao fim, ela, com cara de tacho, lembrou-se imediatamente de seu pai, o burro.

A fábula mostra que a pessoa não deve esquecer sua própria origem, ainda que as circunstâncias lhe confiram prestígio, pois a vida é instável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 380

Esopo 268

A mulher e a galinha

Uma mulher viúva, dona de uma galinha que botava um ovo todos os dias, imaginou que, se lhe desse uma quantia maior de ração, ela botaria dois ovos por dia. A mulher, então, passou a fazer isso, mas sucedeu que a galinha engordou e não conseguia botar nem mesmo uma vez por dia.

A fábula mostra que os cobiçosos que estão sempre em busca de um lucro a mais perdem até o que já possuem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 381

Esopo 269

A mulher e as servas

Uma mulher viúva e trabalhadeira costumava acordar suas jovens servas para os afazeres, ainda à noite, com o canto do galo. E elas, sempre exaustas, concluíram que precisavam torcer o pescoço daquele galo, imaginando que o responsável por seus sofrimentos era ele, que acordava a patroa à noite. Mas aconteceu que, com essa decisão, elas se afundaram em desgraças piores, pois a patroa, sem saber a hora dos galos, passou a despertá-las para o trabalho em hora mais noturna ainda.

Assim, para muitos homens, suas próprias decisões se tornam causa de males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 382

Esopo 270

A mulher e o marido bêbado

Uma mulher tinha um marido bêbado e, no desejo de livrá-lo do vício, bolou o seguinte plano: ao notar que ele estava grogue de bebida e insensível feito um morto, ela o ergueu nos ombros, levou-o ao cemitério e, depois de acomodá-lo no chão, foi embora. Quando calculou que ele já estivesse novamente sóbrio, voltou lá e começou a bater na porta do cemitério. “Quem está batendo?”, perguntou ele. E a mulher: “Sou eu, a pessoa que traz comida para os mortos!”. E ele: “Ô, fulano, não me ofereça de comer, e sim de beber. Pois você me dá aflição ao fazer-me lembrar de comida, e não de bebida!”. E ela, dando golpes no peito, disse: “Ai de mim, desgraçada! De nada adiantou meu plano. Você, marido, não só não aprendeu a lição, como ainda ficou pior, pois seu vício já se tornou um hábito”.

A fábula mostra que não se deve persistir nas más ações, pois há um momento em que, mesmo que não se queira, o hábito se impõe ao homem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 383

Esopo 271

A mulher feiticeira

Uma feiticeira que se oferecia para fazer encantamentos e esconjuros contra a ira dos deuses vivia sempre cheia de trabalho e, com ele, conseguia fartos recursos para viver. No entanto, algumas pessoas registraram queixa contra ela por causa dessas práticas e, levando-a ao tribunal sob a acusação de instituir novidades a respeito das coisas divinas, fizeram-na condenar à morte. Ao vê-la sendo retirada do tribunal, uma pessoa lhe disse: “Mas você, que alardeava rechaçar os rancores das divindades, como não conseguiu aplacar os seres humanos?”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa em relação a uma mulher impostora que faz alarde de prodígios, mas se revela incapaz de realizações banais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 384

Esopo 272

O náufrago e Atena

Um ateniense rico navegava em companhia de outras pessoas, quando ocorreu uma forte borrasca e o navio soçobrou. Enquanto todos os outros pelejavam para nadar, o ateniense não parava de invocar a deusa Atena, fazendo-lhe mil promessas caso se salvasse. Então, um dos companheiros de naufrágio, que estava a seu lado tentando nadar, lhe disse: “Mas, com a ajuda de Atena, movimente o braço você também!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos agir, além de invocar os deuses, ainda que contemos com alguma ajuda em nosso favor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 387

Esopo 273

O náufrago e o mar

Tendo sido arremessado à praia, um náufrago ali jazia, prostrado de fadiga. Pouco depois, levantou-se e, ao olhar o mar, começou a censurá-lo porque ele seduzia os homens com sua aparência tranquila, mas quando os tinha em seu poder se enfurecia e os destruía. Então o mar, assumindo a forma de mulher, lhe disse: “Mas não dirija censuras a mim, meu caro, e sim aos ventos. Por natureza eu sou tal qual você me vê neste momento. Mas eles me assaltam de repente, provocam ondas e me põem em fúria”.

Pois é. Portanto, devemos culpar também nós não aqueles que praticam atos injustos a mando de outros, e sim os que têm autoridade sobre eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 388