Esopo 274

Os navegantes

Um grupo de pessoas entrou num barco e saíram navegando. Quando estavam em alto-mar, veio uma tempestade descomunal e por pouco o navio não soçobrou. Então, um dos navegantes se pôs a rasgar suas vestes e a invocar, entre soluços e gemidos, os deuses pátrios, prometendo dedicar-lhes oferendas de ação de graças, caso eles o salvassem. Mas, assim que cessou a tempestade e retornou a bonança, eles se entregaram à algazarra, dançando e pulando, já que estavam livres do perigo inesperado. E o piloto, que se mantinha cauteloso, disse: “Nós temos que comemorar, amigos, mas sem esquecer que, se calhar, a tempestade ocorrerá novamente”.

A fábula ensina a não nos apegarmos demasiado nos sucessos, tendo em mente a inconstância da fortuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 389

Esopo 275

A nogueira

Uma nogueira que ficava à beira de uma estrada e vivia recebendo pedradas dos que passavam por ela disse para si, gemendo: “Que desgraçada sou eu, que ano após ano proporciono a mim mesma agressões e dores”.

A fábula [é oportuna] para aqueles que se afligem por causa de seus bens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 390

Esopo 276

O noitibó e o morcego

Um noitibó cantava à noite, preso numa gaiola suspensa na janela. Ao ouvir seu canto, um morcego se aproximou e quis saber por que motivo ele ficava em silêncio de dia e cantava à noite. Ele respondeu que não era à toa que se comportava assim; o fato é que ele tinha sido apanhado de dia, enquanto cantava, e por isso desde aquele momento se tornara precavido. Disse-lhe, então, o morcego: “Mas naquele dia é que você devia ter sido cauteloso, antes de ser apanhado, e não agora, que não adianta mais!”.

A fábula mostra que, depois de ocorrida a desgraça, é inútil o arrependimento.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 391

Esopo 277

O onagro e o burro

Ao ver um burro carregando um pesado fardo, um onagro se pôs a desdenhar de sua escravidão, dizendo: “Eu é que sou afortunado, pois vivo em liberdade, levo a vida sem fastios e tenho nas montanhas pastagem à minha disposição. Você, ao contrário, recebe alimento de outrem e vive continuamente submisso à escravidão e a pancadas”. Aconteceu, porém, que naquela mesma hora surgiu um leão, que nem chegou perto do burro, porque o burriqueiro o acompanhava; mas o onagro, que estava sozinho, ele atacou furiosamente e fez dele seu repasto.

Esta fábula mostra que os insubordinados e inflexíveis caem em desgraça de uma hora para outra, pois se deixam levar pela obstinação e prescindem de qualquer ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 395

Esopo 278

O orador Dêmades

Certa vez o orador Dêmades estava discursando para o povo de Atenas, mas eles não lhe davam a menor atenção. Então ele pediu permissão para contar uma fábula esópica. Tendo eles consentido, começou a dizer: “Uma andorinha, uma enguia e Deméter iam por um mesmo caminho e, quando chegaram a um rio, a andorinha voou e a enguia mergulhou”. Disse isso e calou-se. “E Deméter, o que aconteceu com ela?”, perguntaram. E ele respondeu: “Ela está zangada com vocês, que deixaram de lado os assuntos políticos para se ligar em fábulas esópicas”.

Assim, também, dentre os homens, são irracionais aqueles que negligenciam os negócios prementes e dão preferência aos afazeres prazerosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 396

Esopo 279

A ovelha que estava sendo tosquiada

Uma ovelha que estava sendo tosquiada de maneira indevida disse ao tosquiador: “Se você quer lã, corte mais acima. Mas se é a minha carne que você deseja, mate-me de uma vez e pare de torturar-me aos poucos”.

Para os que exercem de modo impróprio seus ofícios, a fábula cai bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 397

Esopo 280

O pai e as filhas

Um homem, pai de duas filhas, deu uma em casamento a um hortelão e a outra a um oleiro. Passado algum tempo, ele foi visitar a casada com o hortelão e lhe perguntou como estava e como iam os negócios. Ela disse que eles tinham fartura e que só pedia aos deuses uma única coisa: que viessem o mau tempo e a chuva, para regar as hortaliças. Logo depois, ele foi ver a casada com o oleiro e perguntou-lhe como estava. Ela disse não lhe faltava nada e que a única coisa que pedia é que o tempo continuasse claro e que o Sol brilhasse, para a cerâmica secar. O pai, então, lhe respondeu: “Se você pede Sol e sua irmã pede chuva, a qual das duas vou juntar-me nas preces?”.

Assim, os que empreendem diferentes tarefas ao mesmo tempo com razão fracassam em todas elas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 401

Esopo 281

As panelas

[A fábula mostra] Que vive em desassossego o pobre que mora vizinho de um patrão ladrão.

Uma panela de barro e uma de cobre estavam sendo levadas rio abaixo. Então a de barro disse para a de cobre: “Nade bem longe de mim e não chegue perto. Ao menor esbarrão eu me quebro, mesmo que eu esbarre sem querer”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 402

Esopo 282

A parede e a estaca

Uma parede, ao ser perfurada violentamente por uma estaca, gritou: “Por que você está me arrombando, se não lhe fiz nenhum mal?”. E respondeu a outra: “Não sou eu a culpada, e sim quem está me golpeando por trás com toda a força!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 403

Esopo 283

O passarinheiro e a cegonha

Um passarinheiro estendeu redes com visgo e ficou espreitando a caça de longe. E, assim que uma cegonha pousou entre os visgos, ele foi correndo apanhá-la. Ela, então, lhe pediu que a soltasse, dizendo que não era nociva aos homens; bem ao contrário, era muito útil, pois apanhava e matava as serpentes e os demais répteis. Então o passarinheiro respondeu: “Mas se realmente você não é maléfica, merece punição exatamente por isto: por envolver-se com malvados”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar o convívio com os malvados, para não passar a impressão de sermos coniventes com a maldade deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 404