Esopo 324

A raposa e a máscara

Uma raposa foi à oficina de um escultor e começou a fuçar nos objetos que lá estavam. Ao deparar com uma máscara de ator de tragédia, ergueu-a e disse: “Oh! Que cabeça! Mas não tem cérebro!”.

A fábula [é oportuna] para homens de corpo magnífico mas de alma irracional.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 459

Esopo 325

A raposa e a pantera

Raposa e pantera discutiam para ver qual das duas era a mais bela. E, como a pantera mencionava a todo instante o colorido mosqueado de seu corpo, a raposa retrucou: “E eu, então! Quanto não sou mais bela que você, eu, que tenho esse colorido não no corpo, mas na alma!”.

A fábula mostra que superior à beleza do corpo é o adorno da inteligência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 460

Esopo 326

A raposa e o bode no poço

Uma raposa caiu num poço e viu-se forçada a ficar lá, pois não tinha como vencer a subida. Nisso, um bode, compelido pela sede, foi ao mesmo poço e, ao vê-la, perguntou se a água era boa. Empolgada com a coincidência, ela se estendeu em elogios à água, dizendo que era de boa qualidade, e o incentivou a descer também. E o bode, que naquele momento só tinha olhos para seu desejo, pulou no poço sem maiores cuidados e, enquanto matava a sede, foi examinando a subida com a raposa. Ela disse, então, que já tinha um plano concebido para a salvação de ambos: “Se você topar, apoie suas patas dianteiras na parede e endireite os chifres, que eu vou subir pelo seu dorso e, depois, puxarei também você para cima”. Bastou uma segunda insistência para o bode sujeitar-se prontamente. Então, a raposa foi saltando pelas pernas dele, subiu em seu dorso e, a partir daí, apoiando-se nos chifres, alcançou a boca do poço. E, depois que subiu, foi indo embora. E, como o bode se pôs a recriminá-la por ter desrespeitado o acordo, ela se voltou e disse: “Meu caro, se você tivesse de juízo o mesmo tanto de pelos que tem na barbicha, não teria descido sem antes ter examinado a subida”.

Assim, também, os homens prudentes devem primeiro considerar o desenvolvimento completo de seus projetos, e só depois empreendê-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 461-462

Esopo 327

A raposa e o cacho de uvas

Uma raposa faminta avistou cachos de uvas suspensos numa parreira. Quis alcançá-los, mas não conseguiu. Indo embora, disse para si: “Estão verdes!”.

Assim, também, certos homens que, por incapacidade, não conseguem realizar seus negócios culpam as circunstâncias.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 463

Esopo 328

A raposa e o crocodilo

Uma raposa e um crocodilo puseram-se a discutir a respeito da nobreza de suas linhagens. O crocodilo fez um longo relatório sobre a distinção de seus ancestrais e, por fim, disse que seus pais haviam sido diretores de uma escola de ginástica. E a raposa replicou: “Mas mesmo que você não dissesse, dá para ver, pela sua pele, que faz muitos anos que você faz ginástica!”.

Assim, também, os fatos refutam os homens mentirosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 465

Esopo 329

A raposa e o espinheiro

Uma raposa estava tentando pular uma sebe, quando escapou de um escorregão apoiando-se num espinheiro. Ela sofreu arranhões na planta das patas e, vendo-se naquela terrível situação, culpou o espinheiro; afinal, ao refugiar-se nele em busca de socorro, recebera um tratamento pior do que aquele que ela pretendera evitar. E o espinheiro retrucou, dizendo: “Mas você ficou louca? Foi querer se agarrar justamente em mim, que tenho o costume de me agarrar em tudo!”.

A fábula mostra que assim, também, são tolos os homens que recorrem a protetores que nasceram com vocação para a injustiça.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 466

Esopo 330

A raposa e o lenhador

Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 468

Esopo 331

A raposa e o macaco que rivalizavam em nobreza de linhagem

Uma raposa e um macaco iam por um mesmo caminho e travaram uma discussão para ver quem era de linhagem mais nobre. Cada um deles já havia feito muitos relatos, quando chegaram a um local onde havia alguns túmulos. O macaco, assim que bateu o olho neles, começou a gemer. Como a raposa quis saber o motivo dos suspiros, o macaco, apontando as sepulturas, respondeu: “Como não chorar, se vejo as sepulturas dos escravos e dos libertos dos meus antepassados?”. E ela replicou: “Pode mentir à vontade, pois nenhum deles vai ressuscitar para desmentir você!”.

Assim, também, os homens mentirosos proferem ainda mais fanfarronices quando não têm refutadores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 469

Esopo 332

A raposa que afagava um cordeirinho e o cão

Uma raposa se meteu num rebanho de ovelhas, agarrou um cordeirinho e começou a fingir que o acarinhava. “Por que você está fazendo isso?”, perguntou-lhe um cão. E ela: “Estou lhe fazendo carinho e brincando com ele!”. E o cão: “Mas agora mesmo eu vou fazer carícias de cão em você, se não deixar em paz o cordeirinho!”.

Para homem inescrupuloso e ladrão imbecil a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 470

Esopo 333

As raposas à beira do rio Meandro

Certa vez, um bando de raposas se juntou à beira do rio Meandro, ávidas de sua água. Apesar do mútuo incentivo, as raposas não se atreviam a entrar, dada a força da correnteza. Então, uma delas, no intuito de debochar da covardia das demais e humilhá-las, declarou-se a mais corajosa e lançou-se destemida na água. E, enquanto a correnteza a levava para o meio do rio, as outras, em pé junto à barranca, lhe diziam: “Não nos abandone! Volte e mostre-nos o trecho por onde podemos beber sem perigo!”. E ela, que estava sendo arrastada, disse: “Tenho que ir a Mileto entregar um recado. Mas na volta eu mostro para vocês!”.

Para aqueles que, por presunção, se expõem ao perigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 471