Esopo 354

O trombeteiro

Um trombeteiro que reunia a tropa, ao ser capturado pelos inimigos, pôs-se a gritar: “Não me matem, homens, ao acaso e sem motivo. Eu não matei nenhum de vocês e nada mais possuo além deste bronze”. Então, eles disseram: “Pois essa é mais uma razão para sua morte, pois você não pode combater, mas estimula todos à batalha”.

A fábula mostra que muito se decepcionam aqueles que incitam às más ações os príncipes malvados e intoleráveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 502

Esopo 355

O urso e a raposa

Um urso dizia todo orgulhoso que era amigo dos homens, porque não comia cadáveres. Então, a raposa lhe disse: “Quem dera você esquartejasse cadáveres e não gente viva!”.

Esta fábula recrimina os ambiciosos, que passam a vida na hipocrisia e na presunção.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 505

Esopo 356

O vaqueiro que perdeu um bezerro e o leão

Enquanto pastoreava um rebanho de touros, um vaqueiro perdeu um bezerro. Após ter percorrido os arredores sem tê-lo encontrado, prometeu a Zeus que imolaria um cabrito, se localizasse o ladrão. Ao chegar a um bosque de carvalhos, avistou um leão devorando o bezerro. Apavorado, ergueu as mãos para o céu e disse: “Zeus soberano, antes eu lhe havia prometido imolar um cabrito se encontrasse o ladrão, mas agora prometo imolar um touro, se eu me safar das garras desse ladrão!”.

Esta fábula pode ser dita a propósito de homens que, quando estão desventurados em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que a encontram procuram evitá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 511

Esopo 357

A velha e o médico

Uma velha senhora, doente dos olhos, contratou os serviços de um médico. Ele vinha à sua casa, passava remédio em seus olhos e, enquanto ela os mantinha fechados, aproveitava para surrupiar algum de seus móveis. E, depois que levou tudo embora, encerrou o tratamento e cobrou o valor combinado. Tendo ela se recusado a fazer o pagamento, o médico levou-a ao tribunal. A senhora, no entanto, confirmou que tinha, sim, proposto a remuneração, se ele curasse seus olhos, mas na realidade o que aconteceu foi que com aquele tratamento ela tinha ficado pior do que antes. “Pois naquela época”, afirmou, “eu enxergava todos os móveis da casa, e agora não consigo ver nenhum!”.

Assim, os homens malvados não percebem que, por cobiça, arrastam contra si as provas de sua malvadeza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 512

Esopo 358

O velho e a Morte

Certa vez, um velho seguia um longo percurso carregando a lenha que cortara. Sob intensa fadiga, pôs o fardo no chão e ficou invocando a Morte. Quando ela surgiu e perguntou por que motivo ele a invocara, o velho respondeu: “Para que você levante do chão o meu fardo!”.

A fábula mostra que todo ser humano ama a vida, ainda que seja desditoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 514

Esopo 359

O vendedor de estátuas

Um homem fabricou um Hermes de madeira e levou-o ao mercado para vender. Como nenhum comprador se aproximava, ele, querendo atrair alguns, se pôs a gritar que estava vendendo um deus benfeitor e dispensador de lucros. Então, uma das pessoas que lá estavam lhe disse: “Mas se ele é assim, meu caro, por que é que você o está vendendo, em vez de tirar proveito de suas vantagens?”. Ele respondeu: “É que eu necessito de uma certa vantagem urgentemente, enquanto ele costuma conceder seus favores devagar”.

Para homem vergonhosamente cúpido que nem aos deuses tem respeito a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 515

Esopo 360

A vespa e a cobra

Uma vespa pousou na cabeça de uma cobra e não parava de atormentá-la, golpeando-a com o ferrão. E ela, com muita dor e sem ter como vingar-se do inimigo, enfiou a cabeça embaixo da roda de uma carroça e, assim, morreu, junto com a vespa.

Para aqueles que suportam morrer em companhia de seus inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 516

Esopo 361

As vespas, as perdizes e o lavrador

Vespas e perdizes, premidas pela sede, foram à casa de um lavrador pedir-lhe de beber, prometendo, em troca da água, esta compensação: as perdizes arrancariam as ervas daninhas das videiras, para os cachos ficarem viçosos, e as vespas fariam ronda para afugentar, com seus ferrões, os gatunos. E o lavrador respondeu: “Só que eu tenho dois bois que não me prometem nada, mas me fazem tudo. Logo, é melhor dar de beber a eles do que a vocês”.

Esta fábula [é oportuna] para homem mal recompensado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 517

Esopo 362

O viandante e a Verdade

Enquanto caminhava pelo deserto, um homem encontrou uma mulher solitária, parada, de olhos voltados para o chão, e lhe perguntou: “Quem é você?”. E ela: “A Verdade”. “E por que motivo deixou a cidade e está morando no deserto?”, tornou ele. Ela respondeu: “É que, em tempos passados, a mentira era companheira de poucas pessoas, mas hoje, sempre que você quer falar ou ouvir alguma coisa, ela está com todos os homens”.

[A fábula mostra] Que os homens padecem uma vida péssima e sofrida quando a mentira prevalece sobre a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 518

Esopo 363

O viandante e a víbora

Era inverno quando um viandante encontrou uma víbora enregelada de frio. Compadecido, pegou-a e, colocando-a sob a veste, tentou aquecê-la. Enquanto ela estava sob o efeito da friagem, permaneceu acomodada, mas, tão logo se aqueceu, lascou uma picada no ventre do homem. Ele disse, prestes a morrer: “Bem-feito para mim! Por que fui salvar essa moribunda, que eu devia matar mesmo que ela estivesse cheia de vitalidade?”.

A fábula mostra que a maldade, se beneficiada, além de não retribuir o benefício, ainda se assanha contra os benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 519