Bábrio 1.64

O abeto e o cardo

Rivalizavam entre si um abeto e um cardo.

E o abeto a si mesmo de muitas maneiras se gabava:

“Sou formoso e de tamanho considerável,

cresço na vertical, convivo com as nuvens,

sou vigamento do teto e quilha de barcos. 5

Como te comparas, espinheira, a uma árvore de tal porte?”

E o cardo disse ao abeto: “Se tiveres memória

dos machados que estão sempre a abater-te,

ser um cardo também tu escolherás de preferência.”

     Todo homem ilustre, muito mais do que os inferiores,

tanto obteve prestígio como suportou perigos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 3

O abeto e o espinheiro

Competiam entre si um abeto e um espinheiro. O abeto, para se vangloriar, disse: “Sou belo, alto, de bom porte e útil na construção de navios e de coberturas de templos. E você ainda tenta medir-se comigo?”. Ao que o espinheiro respondeu: “Se você se lembrar dos machados e dos serrotes que te abatem, também vai preferir ser um espinheiro”.

[A fábula mostra] Que na vida as pessoas não devem se deixar tomar pelo orgulho, pois a vida dos simples é que é livre de ameaças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 34