Esopo 5

Os adúlteros

Um homem saía à noite para encontrar-se às escondidas com uma mulher, com quem mantinha uma ligação adúltera. Ele se fazia reconhecer por meio de um sinal: sempre que chegava à casa, latia como um cãozinho, para ela abrir-lhe a porta. Fazia isso todas as vezes. Mas outro homem, que a cada anoitecer o via percorrendo aquele trajeto, atinou com a patifaria dele e uma noite pôs-se a segui-lo de longe, em segredo. O adúltero, sem desconfiar de nada, chegou à porta e agiu como de costume. O sujeito que o seguia assistiu a tudo e voltou para casa, mas na noite seguinte levantou-se, dirigiu-se antes que o outro para a casa da mulher adúltera e soltou latidos feito um cãozinho. E ela, segura de que era o amante, apagou a lamparina para que ninguém o visse e abriu a porta. Ele entrou e se deitou com ela. Pouco depois, o amante chegou e pôs-se a latir do lado de fora como um cãozinho, segundo o costume. O sujeito que estava acomodado lá dentro, ao notar o outro latindo lá fora como um cãozinho, pôs-se ele próprio a soltar latidos dentro da casa com uma voz forte, como se fosse um cão enorme. Então o que estava lá fora compreendeu que lá dentro havia um bem mais forte que ele e foi-se embora.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 36-37