Esopo 121

A doninha e Afrodite

Uma doninha se apaixonou por um rapazinho muito formoso e foi pedir a Afrodite que a transformasse em mulher. Comovida com seu sofrimento, a deusa transformou-a em bela moça. E, de fato, o rapazinho, tão logo a avistou, foi tomado de paixão e a levou para casa como sua amante. Estavam os dois em repouso no leito nupcial, quando Afrodite, desejando saber se, tendo modificado o corpo da doninha, tinha alterado também seu caráter, lançou um rato no meio do quarto. E ela, esquecida de sua atual condição, ergueu-se do leito e começou a perseguir o rato, na ânsia de devorá-lo. Então a deusa perdeu a paciência e fê-la voltar à sua antiga natureza.

Assim, também, os homens perversos por natureza, ainda que sua constituição física se altere, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 184

Esopo 123

A escrava feia e Afrodite

Um patrão era amante de uma escrava feia e malandra. Com as moedas de ouro que ganhava, ela se enfeitava de maneira magnífica e tentava competir com a patroa. E a todo momento oferecia sacrifícios a Afrodite, suplicando-lhe que fizesse dela uma mulher sedutora. Mas a deusa lhe apareceu em sonho e disse que não tinha gosto em torná-la bela. “Ao contrário”, continuou, “estou chateada e muito zangada com aquele homem que acha você bonita!”

[A fábula mostra] Que as pessoas que ficam ricas por meios ilícitos não devem ufanar-se, visto que, no que respeita à vergonha, elas são disformes e vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 188