O asno que carregava sal
Um mascate que possuía um asno ouviu dizer
que no litoral o sal estava com bom preço,
e resolveu comprá-lo. Após carregar fartamente
o asno, tomou o caminho de volta. A viagem prosseguia
e de repente o asno sem querer resvalou num riacho. 5
Como parte do sal se diluísse, ele se sentiu aliviado,
ergueu-se com facilidade e sem esforço chegou
à sua região, no interior. Após a venda do sal, de novo
o mascate levou o asno para carregá-lo com mais carga
e tornou a colocar sobre ele o fardo. E quando ele, afadigado, 10
ia cruzar a correnteza, justo onde caíra na vez anterior,
foi ao chão de propósito. Novamente a carga se dissolveu
e ele se ergueu leve, alegre como se tivesse lucrado alguma coisa.
Então o mascate pensou bem e, numa outra vez, retornou
com uma carga ainda maior, mas de esponjas porosas, 15
extraídas do mar; do sal ele não quis mais saber.
E o asno, ao aproximar-se do córrego, matreiramente
caiu de propósito. Mas as esponjas a um só tempo
se encharcaram, a carga inteira aumentou de volume
e ele foi embora carregando um peso dobrado nas costas. 20
[Muitas vezes a gente se dá mal com aquilo com que um dia se deu bem.]
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]