Bábrio 2.111

O asno que carregava sal

Um mascate que possuía um asno ouviu dizer

que no litoral o sal estava com bom preço,

e resolveu comprá-lo. Após carregar fartamente

o asno, tomou o caminho de volta. A viagem prosseguia

e de repente o asno sem querer resvalou num riacho. 5

Como parte do sal se diluísse, ele se sentiu aliviado,

ergueu-se com facilidade e sem esforço chegou

à sua região, no interior. Após a venda do sal, de novo

o mascate levou o asno para carregá-lo com mais carga

e tornou a colocar sobre ele o fardo. E quando ele, afadigado, 10

ia cruzar a correnteza, justo onde caíra na vez anterior,

foi ao chão de propósito. Novamente a carga se dissolveu

e ele se ergueu leve, alegre como se tivesse lucrado alguma coisa.

Então o mascate pensou bem e, numa outra vez, retornou

com uma carga ainda maior, mas de esponjas porosas, 15

extraídas do mar; do sal ele não quis mais saber.

E o asno, ao aproximar-se do córrego, matreiramente

caiu de propósito. Mas as esponjas a um só tempo

se encharcaram, a carga inteira aumentou de volume

e ele foi embora carregando um peso dobrado nas costas. 20

[Muitas vezes a gente se dá mal com aquilo com que um dia se deu bem.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 2.139

O asno em pele de leão

Um asno estendeu sobre as ancas uma pele de leão

e presumiu que era temível para todos os homens.

Dava saltos e coices, causando a fuga dos homens

e também a fuga dos rebanhos todos.

Mas, com o sopro do vento, a pele de seu lombo 5

se despregou e ele se fez notar como asno.

E uma pessoa lhe disse, surrando-o com o porrete:

“Nasceste asno, não imites leão.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.7

O cavalo e o asno

Um homem tinha um cavalo e costumava conduzi-lo

ao seu lado, sem carga, e colocava o fardo

sobre um asno velho. Sentindo-se então muito cansado,

o asno se aproximou do cavalo e pôs-se a confabular:

“Se quisesses em meu benefício tomar uma parte do fardo, 5

rapidamente poderia revigorar-me. Do contrário, vou morrer.’

E ele disse: “Não vais prosseguir? Não me amoles!”

Ele a custo foi-se arrastando, calado, mas, esgotado de cansaço,

caiu e jazeu morto, como havia predito.

Sem demora, para junto dele o dono trouxe 10

o cavalo, foi desatando o carregamento todo

e não só colocou sobre ele a albarda da azêmola

como pôs por cima a pele do asno, após esfolá-lo.

O cavalo dizia: “Ai de mim! que má decisão.

Aquele com quem eu não quis partilhar o pouco, 15

a necessidade o põe inteiro sobre mim”.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]