Esopo 22

O ateniense devedor

Em Atenas, um devedor, ao ter sua dívida cobrada pelo credor, primeiro pôs-se a pedir-lhe um adiamento, alegando estar em dificuldade. Como não o convenceu, trouxe uma porca, a única que possuía, e, na presença dele, colocou-a à venda. Então chegou um comprador e quis saber se a porca era parideira. Ele afirmou que ela não apenas paria, mas que ainda o fazia de modo extraordinário: para as festas da deusa Deméter, paria fêmeas e, para as de Atena, machos. E, como o comprador estivesse assombrado com a resposta, o credor disse: “Mas não se espante, pois nas festas do deus Dionísio ela também vai lhe parir cabritos”.

A fábula mostra que muitos, interessados no próprio lucro, não hesitam nem mesmo em dar falso testemunho de absurdos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 59

Esopo 151

A gralha e o cão

Uma gralha estava oferecendo um sacrifício à deusa Atena e convidou um cão para o banquete. Ele, então, lhe disse: “Por que você desperdiça sacrifícios? A deusa tem tanto ódio de você que até retirou a credibilidade de seus augúrios!”. E a gralha respondeu: “Mas é justamente por isso que estou oferecendo um sacrifício, para que ela mude seus sentimentos a meu respeito, porque sei que ela não gosta de mim”.

Assim, muitos, por medo, não vacilam em beneficiar os inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 228

Esopo 154

Héracles e Atena

Héracles seguia por um caminho estreito, quando viu no chão uma coisa parecida com maçã e tentou espatifá-la. Ao ver, no entanto, que ela dobrara de tamanho, começou a pisoteá-la mais ainda e a bater nela com a clava. Mas a coisa se estufou e, volumosa, bloqueou o caminho. Então, Héracles largou a clava e ficou parado, tomado de assombro. Nisso, a deusa Atena apareceu e disse: “Continue parado, meu irmão! Essa coisa aí é a discórdia e o amor da vitória. Se a deixarem em paz, ela permanece do jeito que era no início, mas, em meio a lutas, se avoluma assim”.

[A fábula mostra] Que está claro para todos que os combates e as discórdias são causas de grande dano.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 233

Esopo 272

O náufrago e Atena

Um ateniense rico navegava em companhia de outras pessoas, quando ocorreu uma forte borrasca e o navio soçobrou. Enquanto todos os outros pelejavam para nadar, o ateniense não parava de invocar a deusa Atena, fazendo-lhe mil promessas caso se salvasse. Então, um dos companheiros de naufrágio, que estava a seu lado tentando nadar, lhe disse: “Mas, com a ajuda de Atena, movimente o braço você também!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos agir, além de invocar os deuses, ainda que contemos com alguma ajuda em nosso favor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 387

Esopo 383

Zeus, Prometeu, Atena e Momo

Assim que Zeus, Prometeu e Atena concluíram suas obras – a de Zeus era um touro, a de Prometeu, um homem, e a de Atena, uma casa –, escolheram Momo para juiz. E ele, com inveja dos artefatos, disse, logo de saída, que a falha de Zeus era não ter colocado os olhos do touro nos chifres, para ele enxergar onde ia bater. A falha de Prometeu, por sua vez, era não ter pendurado o coração dos homens na parte externa, para os malvados não passarem despercebidos e para ficar visível o que cada um tinha em mente. E, em terceiro lugar, disse que Atena devia ter acrescentado rodas na casa, para uma pessoa se mudar com facilidade, no caso de vir a ter um vizinho malvado. Mas Zeus se irritou com ele por causa dessa falta de consideração e o enxotou do Olimpo.

A fábula mostra que nada é tão perfeito que seja inteiramente isento de crítica.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 543