Fedro 5.1

O rei Demétrio e o poeta Menandro.

Demétrio que foi chamado de Falério

apoderou-se de Atenas com um governo tirânico.

O povo, como de costume, irrompe de todo lado e à porfia,

gritando “Viva!”. Até mesmo os mais notáveis

beijam aquela mão, pela qual foram oprimidos, 5

lamentando, em silêncio, a triste vicissitude da fortuna.

Também os preguiçosos e os que buscam o ócio

se arrastam por último para a ausência não lhes causar dano;

entre esses, Menandro, famoso por suas comédias

que Demétrio, não o conhecendo pessoalmente, tinha lido 10

e tinha admirado o talento do homem;

untado de perfume, esvoaçando suas vestes,

ele vinha com passo delicado e malemolente.

Quando o tirano o viu no fim da fila:

“Quem é aquele bicha que se atreve a vir 15

à minha presença?” Responderam os mais próximos:

“Este é o escritor Menandro”. Mudado imediatamente,

disse: “Impossível existir um homem mais formoso”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.5

O poeta

Vou transmitir aos pósteros, com uma breve narração, que

muitas vezes há mais mérito numa só pessoa do que numa turma.

Um certo homem deixou três filhas, ao morrer;

uma formosa e que caçava os homens com seus olhos,

já a outra, fiandeira de lã e frugal camponesa, 5

e a terceira, devota do vinho e muito feia.

O velho, porém, fez herdeira a mãe delas

sob a condição de que distribuísse toda a fortuna

de modo igualitário para as três, mas do seguinte modo:

“Que não possuam ou desfrutem das coisas dadas”; e 10

“que, logo que deixassem de ter as coisas que receberam,

entregassem à mãe cem mil sestércios”.

O rumor se espalha em Atenas, a zelosa mãe

consulta especialistas em direito; ninguém explica

como elas não possuiriam o que lhes tinha sido dado 15

ou não usufruiriam de seu benefício; depois, como elas,

que não ficaram com nada, entregariam o dinheiro.

Depois que se passou um intervalo de um longo tempo

e o sentido do testamento não pôde ser compreendido,

a mãe, deixando de lado o direito, apelou para a boa fé. 20

Separa para a rameira a vestimenta, os enfeites femininos,

o lavatório de prata e os eunucos sem pelos;

para a fiandeira, terras, gado, casa de campo, trabalhadores,

os bois, os jumentos e o equipamento agrícola;

para a bêbada, a adega cheia de ânforas antigas, 25

uma casa elegante e agradáveis jardins.

Justo quando queria dar a cada uma as coisas assim destinadas

e o povo, que as conhecia, aprovava,

Esopo apareceu de repente no meio da multidão:

“Oh, se permanecesse a consciência no pai enterrado 30

quão dolorosamente sofreria pelo fato de que os atenienses

não foram capazes de interpretar a sua vontade!”

Perguntado em seguida, desfez o erro de todos:

“A casa e os adornos com os encantadores jardins

e os vinhos velhos dai à fiandeira camponesa; 35

a vestimenta, as pérolas, os lacaios etc.

concedei àquela que leva a vida no excesso;

os campos e a casa de campo e o gado com os pastores

doai para a rameira. Nenhuma poderá suportar

ser dona do que é alheio aos seus costumes. 40

A feia venderá o aparato para comprar vinho;

a rameira se desfará dos campos para obter adorno;

e aquela que se alegra com o gado e é dedicada à lã

dará por qualquer soma a casa de luxo.

Assim nenhuma possuirá o que lhe tiver sido dado, 45

e elas entregarão à mãe o dinheiro estipulado

proveniente do preço das coisas que cada uma tiver vendido”.

Assim a sagacidade de um único homem encontrou

aquilo que escapou à falta de sabedoria de muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 16

A andorinha envaidecida e a gralha

[A fábula mostra] Que os gabolas constroem, com suas falas mentirosas, recriminações para si.

A andorinha disse para a gralha: “Eu sou virgem, ateniense, princesa, filha do rei de Atenas”. E em acréscimo falou também de Tereu, do abuso sofrido e da mutilação de sua língua. Então a gralha lhe disse: “Se, apesar de mutilada, você tagarela tanto assim, o que não faria se tivesse língua?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 52

Esopo 22

O ateniense devedor

Em Atenas, um devedor, ao ter sua dívida cobrada pelo credor, primeiro pôs-se a pedir-lhe um adiamento, alegando estar em dificuldade. Como não o convenceu, trouxe uma porca, a única que possuía, e, na presença dele, colocou-a à venda. Então chegou um comprador e quis saber se a porca era parideira. Ele afirmou que ela não apenas paria, mas que ainda o fazia de modo extraordinário: para as festas da deusa Deméter, paria fêmeas e, para as de Atena, machos. E, como o comprador estivesse assombrado com a resposta, o credor disse: “Mas não se espante, pois nas festas do deus Dionísio ela também vai lhe parir cabritos”.

A fábula mostra que muitos, interessados no próprio lucro, não hesitam nem mesmo em dar falso testemunho de absurdos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 59