Fedro 3.14

Sobre o divertimento e a seriedade

Um certo ateniense, tendo visto Esopo

numa turma de meninos jogando com nozes, parou

e riu como de um louco. Assim que o velho, mais

gozador do que objeto de gozação, percebeu isso,

pôs no meio da rua  um arco desarmado: 5

“Ei, sabido”, diz ele, “explica o que eu fiz”.

Acorre o povo. Aquele se esforça durante muito tempo

e não entende a causa da questão posta.

Por último, entrega os pontos. Então o sábio, vitorioso:

“Rapidamente romperás o arco, se o tiveres sempre esticado; 10

mas se o afrouxares, será útil quando quiseres”.

Assim, de vez em quando, devem ser dados divertimentos ao espírito,

para que ele volte a ti melhor para pensar.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 22

O ateniense devedor

Em Atenas, um devedor, ao ter sua dívida cobrada pelo credor, primeiro pôs-se a pedir-lhe um adiamento, alegando estar em dificuldade. Como não o convenceu, trouxe uma porca, a única que possuía, e, na presença dele, colocou-a à venda. Então chegou um comprador e quis saber se a porca era parideira. Ele afirmou que ela não apenas paria, mas que ainda o fazia de modo extraordinário: para as festas da deusa Deméter, paria fêmeas e, para as de Atena, machos. E, como o comprador estivesse assombrado com a resposta, o credor disse: “Mas não se espante, pois nas festas do deus Dionísio ela também vai lhe parir cabritos”.

A fábula mostra que muitos, interessados no próprio lucro, não hesitam nem mesmo em dar falso testemunho de absurdos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 59

Esopo 272

O náufrago e Atena

Um ateniense rico navegava em companhia de outras pessoas, quando ocorreu uma forte borrasca e o navio soçobrou. Enquanto todos os outros pelejavam para nadar, o ateniense não parava de invocar a deusa Atena, fazendo-lhe mil promessas caso se salvasse. Então, um dos companheiros de naufrágio, que estava a seu lado tentando nadar, lhe disse: “Mas, com a ajuda de Atena, movimente o braço você também!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos agir, além de invocar os deuses, ainda que contemos com alguma ajuda em nosso favor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 387

Esopo 278

O orador Dêmades

Certa vez o orador Dêmades estava discursando para o povo de Atenas, mas eles não lhe davam a menor atenção. Então ele pediu permissão para contar uma fábula esópica. Tendo eles consentido, começou a dizer: “Uma andorinha, uma enguia e Deméter iam por um mesmo caminho e, quando chegaram a um rio, a andorinha voou e a enguia mergulhou”. Disse isso e calou-se. “E Deméter, o que aconteceu com ela?”, perguntaram. E ele respondeu: “Ela está zangada com vocês, que deixaram de lado os assuntos políticos para se ligar em fábulas esópicas”.

Assim, também, dentre os homens, são irracionais aqueles que negligenciam os negócios prementes e dão preferência aos afazeres prazerosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 396