A gralha e as aves
Íris, a mensageira do céu vestida de púrpura, certa vez
anunciou a instituição, na morada dos deuses, de um concurso
de beleza para os seres alados. Por toda parte a notícia correu logo
e de todos se apossou o desejo dos divinos prêmios.
De certa rocha inacessível a cabras gotejava uma fonte, 5
e a água armazenada era límpida, de verão.
Aí veio ter a raça de todos os pássaros:
eles lavavam seus rostos e suas canelas,
sacudiam as asas, penteavam os penachos.
Também àquela fonte veio ter um gaio, 10
velho, filho de uma gralha: fez apliques com
uma pena de um e outra de outro em seus ombros úmidos,
— era singular seu adorno matizado, de penas de todos eles! —.
e rumou à morada dos deuses, mais ancho que uma águia.
Assombrado, Zeus estava prestes a conceder-lhe a vitória, 15
se a andorinha, ateniense que era, não o desmascarasse,
sendo a primeira a arrancar-lhe uma pena.
Ele então lhe disse: “Não me delates!”
Mas nisso pôs-se a depená-lo a rola, o tordo,
a pega e a cotovia, que brinca nas sepulturas, 20
e o gavião espreitador de pássaros-filhotes;
As demais fizeram igual e ele como gaio se fez notar.
Filho, adorna a ti próprio com adornos que te pertencem,
pois se te sobressaíres com recursos alheios, serás despojado.
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]