Fedro 4.9

A raposa e o bode

O homem astuto, assim que depara com o perigo,

busca encontrar a fuga na desgraça do outro.

Uma raposa descuidada tinha caído em um poço

e ficou presa devido à margem muito alta,

quando no mesmo local chegou um bode com sede. 5

Assim que ele perguntou se a água era doce

e abundante, aquela, maquinando uma trapaça:

“Desce, amigo; é tão grande a qualidade da água

que a minha vontade não consegue ser saciada”.

O barbudo atirou-se. Então a raposinha 10

escapou do poço, apoiada em seus altos chifres,

e deixou o bode aprisionado no poço fechado.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.17

Sobre as cabras barbudas

Como as cabras tivessem obtido de Júpiter barba,

os bodes, entristecidos, começaram a ficar indignados

porque as fêmeas tinham igualado sua dignidade.

“Deixai”, diz [Júpiter] “que elas desfrutem de uma glória vã

e usurpem o ornato de vossa função, 5

contanto que não sejam iguais às vossas forças”.

Este enredo aconselha a que suportes que sejam semelhantes

a ti no aspecto exterior os que são diferentes em valor.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 29

O bode e a videira

Enquanto um bode comia os brotos no renovo da videira, esta lhe disse: “Por que você me danifica? Será que não há mais relva? Mesmo assim, fornecerei todo o vinho de que precisarem quando você for imolado”.

Os ingratos e os que querem passar a perna nos amigos, a fábula denuncia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 70

Esopo 326

A raposa e o bode no poço

Uma raposa caiu num poço e viu-se forçada a ficar lá, pois não tinha como vencer a subida. Nisso, um bode, compelido pela sede, foi ao mesmo poço e, ao vê-la, perguntou se a água era boa. Empolgada com a coincidência, ela se estendeu em elogios à água, dizendo que era de boa qualidade, e o incentivou a descer também. E o bode, que naquele momento só tinha olhos para seu desejo, pulou no poço sem maiores cuidados e, enquanto matava a sede, foi examinando a subida com a raposa. Ela disse, então, que já tinha um plano concebido para a salvação de ambos: “Se você topar, apoie suas patas dianteiras na parede e endireite os chifres, que eu vou subir pelo seu dorso e, depois, puxarei também você para cima”. Bastou uma segunda insistência para o bode sujeitar-se prontamente. Então, a raposa foi saltando pelas pernas dele, subiu em seu dorso e, a partir daí, apoiando-se nos chifres, alcançou a boca do poço. E, depois que subiu, foi indo embora. E, como o bode se pôs a recriminá-la por ter desrespeitado o acordo, ela se voltou e disse: “Meu caro, se você tivesse de juízo o mesmo tanto de pelos que tem na barbicha, não teria descido sem antes ter examinado a subida”.

Assim, também, os homens prudentes devem primeiro considerar o desenvolvimento completo de seus projetos, e só depois empreendê-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 461-462