Fedro 5.4

O burro e o porquinho.

Após ter imolado um cachaço ao venerável Hércules,

a quem devia uma promessa por sua salvação, um sujeito

ordenou que fosse posto ao burrinho as sobras da cevada.

Este, tendo-as rejeitado, falou assim:

“Com todo prazer eu desejaria essa comida, 5

se quem foi alimentado com ela não tivesse sido degolado”.

Dissuadido pela reflexão desta fábula

eu sempre evitei o lucro perigoso.

Mas dizes: “Os que roubaram riqueza, as têm”.

Eia, contemos os que, depois de presos, morreram: 10

descobrirás que é maior a turma dos punidos.

A temeridade é um bem para poucos e um mal para muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.1

O burro e os sacerdotes de Cibele

Quem nasceu infeliz, não só passa a vida triste,

mas também, depois da morte,

o persegue a dura desgraça do fado.

Os sacerdotes de Cibele costumavam conduzir de um lado

para outro para suas esmolas um burro que levava as cargas. 5

Quando esse acabou morrendo do trabalho e das pancadas,

tiraram  seu couro e fizeram tambores para si.

Mais tarde, indagados por um certo sujeito o que eles

tinham feito do queridinho deles, falaram deste modo:

“Ele achava que após a morte estaria seguro: 10

eis que outros golpes se acumulam sobre o morto!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.7

Dois burros e os ladrões

Iam dois burros carregados de fardos;

um levava cestos com dinheiro,

o outro, sacos estufados de muita cevada.

Enquanto aquele, rico por sua carga, se destaca pela cabeça erguida

e ostenta no pescoço um sonoro sininho; 5

o companheiro segue num passo silencioso e tranquilo.

De repente, surgem de emboscada ladrões

e em meio ao ataque, ferem com a espada o mulo,

roubam as moedas e desprezam a cevada sem valor.

Então, como o espoliado chorasse seus infortúnios, 10

diz o outro: “Na verdade, alegro-me de ter sido desprezado;

pois nada perdi, nem sofri ferimento algum.”

Por este argumento, a pobreza dos homens é segura,

as grandes riquezas estão sujeitas ao perigo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.11

O burro e o leão caçando

O desprovido de valor, quando alardeia com palavras sua glória,

engana os desconhecidos; para os conhecidos, é motivo de zombaria.

Um leão, querendo caçar em companhia de um burro,

camuflou-o entre os ramos e ao mesmo tempo exortou-o

a aterrorizar as feras com sua voz insólita, 5

e ele as pegaria ao tentarem fugir. Então o orelhudo

ergue subitamente um urro com todas as suas forças

e abala os bichos com o inédito portento.

Esses, buscando aterrorizados as saídas conhecidas,

são abatidos pelo terrível ataque do leão. 10

Depois que este se cansou da matança, chama o burro

e manda-lhe conter a voz. Então ele, insolente:

“Que tal te parece o efeito de minha voz?”

“Notável”, diz, “de tal modo que, se eu não conhecesse

o teu ânimo e a tua raça, eu teria fugido com igual medo.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.15

O burro para o velho pastor

Na mudança de governo, frequentemente

os pobres nada mudam, exceto os costumes de seu senhor.

Que isso é verdade esta pequena fabulazinha mostra.

Um velho medroso apascentava seu burro no prado.

Aterrorizado pelo repentino clamor dos inimigos, ele 5

aconselhava ao burro que fugisse, para que não pudessem ser capturados.

Mas aquele, tranquilo: “Pergunto: acaso julgas

que o vencedor me porá duas cargas?”

O velho disse que não. “Então que diferença faz para mim

a quem eu sirva, se carrego a minha carga?” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.21

O velho leão, o javali, o touro e o burro

Todo aquele que perdeu sua antiga dignidade,

é, em sua grave queda, objeto de galhofa até mesmo para os covardes.

Como um leão, enfraquecido pelos anos e privado de suas forças,

jazesse, exalando seu último suspiro,

um javali veio até ele com seus dentes fulminantes 5

e, com um golpe, se vingou de uma antiga ofensa.

Mais tarde um touro perfurou com seus chifres hostis

o corpo do inimigo. Um burro, quando viu a fera

sendo ferida impunemente, quebrou-lhe a fronte com coices.

E ele, morrendo: “Suportei que os fortes indignamente 10

me insultassem; a ti, desonra da natureza,

visto ser eu obrigado a suportar-te, pareço morrer duas vezes.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.29

O burro rindo do javali

Muitas vezes os tolos, buscando o riso fácil,

satirizam os outros com grave ofensa

e instigam contra si um perigoso risco.

Um burrico, encontrando-se com um javali,

disse: “Salve, irmão.” Aquele, indignando-se, repudia 5

a deferência e pergunta por que gosta de mentir assim.

O burro, mostrando o pinto: “Se dizes que não sou semelhante a ti,

com certeza isto aqui é semelhante ao teu focinho.”

O javali, embora quisesse fazer um nobre ataque,

reprimiu a ira e: “A vingança é fácil para mim, 10

mas não quero me sujar com sangue ignóbil.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 33

O burro doente e o lobo médico

Em visita a um burro adoentado, um lobo começou a apalpar o corpo dele, ao mesmo tempo que indagava quais partes doíam mais. E respondeu o burro: “Essas que você está apalpando”.

Assim, os homens maus, ainda que deem a impressão de ajudar, só prejudicam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74

Esopo 34

O burro festeiro e o dono

Uma pessoa tinha um cão maltês e um burro, mas vivia sempre mimando o cão. Desse modo, se ia jantar fora, trazia algum bocado para lhe atirar quando o cão vinha a seu encontro abanando o rabo. Certa vez o burro, enciumado, correu ao encontro do dono e, ao saltitar, deu-lhe um coice. Então o dono perdeu a paciência e ordenou que, debaixo de pancadas, ele fosse levado para ser preso na estrebaria.

A fábula mostra que nem todos nasceram para tudo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 75

Esopo 35

O burro e a mula

Um burriqueiro colocou fardos sobre um burro e uma mula e pôs-se a tangê-los. Enquanto o caminho seguia pela planície, o burro suportou o peso, mas quando chegaram à montanha ele já não aguentava mais e pediu à mula o favor de assumir uma parte de seu fardo, para que ele pudesse continuar transportando o restante. Mas ela não deu atenção ao pedido. O burro, então, despencou numa ribanceira e arrebentou-se. Sem saber o que fazer, o burriqueiro colocou o fardo do burro sobre a mula e, depois de escorchá-lo, pôs sobre ela também a pele do burro. Foi então que, sob forte exaustão, ela disse: “Bem feito para mim! Se eu tivesse me deixado convencer pelo burro, que me pediu o favor de aliviá-lo um pouco, agora não estaria carregando o burro juntamente com seus fardos!”.

Assim, também, alguns credores avarentos, para não conceder descontos aos devedores, muitas vezes acabam perdendo o próprio capital.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 77