Esopo 212

O leão, o burro e a raposa

Um leão, um burro e uma raposa fizeram entre si uma sociedade e foram caçar. Assim que apanharam uma boa quantia de presas, o leão determinou que o burro lhes fizesse a partilha. Então ele fez três partes iguais e convidou-o para escolher uma. Enfurecido, o leão saltou sobre ele, devorou-o e, depois, determinou que a raposa fizesse a divisão. Ela ajuntou tudo num único monte, reservando para si uma pequena porção, e convidou o leão a fazer a escolha. E, quando o leão lhe perguntou quem é que a ensinara a repartir daquele modo, a raposa respondeu: “A desgraça do burro!”.

A fábula mostra que os infortúnios do próximo se tornam, para os homens, fonte de sabedoria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 308

Esopo 238

O lobo general e o burro

[A fábula mostra] Que certas pessoas que parecem legislar segundo a justiça elas próprias não se enquadram nas leis que formulam e que adotam em seus julgamentos.

Assim que se tornou general da alcateia, um lobo ditou leis fixando que cada lobo deveria trazer para o grupo a presa que tivesse caçado e dar uma porção igual para cada um, a fim de evitar que os demais, privados de comida, devorassem uns aos outros. Então um burro se aproximou e, sacudindo a crina, disse: “Magnífica ideia saída da cabeça de um lobo! Mas como é que você deixou guardada em seu covil a caça de ontem? Vamos, trate de oferecê-la ao grupo, faça a partilha!”. E ele, denunciado, revogou as leis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 341

Esopo 277

O onagro e o burro

Ao ver um burro carregando um pesado fardo, um onagro se pôs a desdenhar de sua escravidão, dizendo: “Eu é que sou afortunado, pois vivo em liberdade, levo a vida sem fastios e tenho nas montanhas pastagem à minha disposição. Você, ao contrário, recebe alimento de outrem e vive continuamente submisso à escravidão e a pancadas”. Aconteceu, porém, que naquela mesma hora surgiu um leão, que nem chegou perto do burro, porque o burriqueiro o acompanhava; mas o onagro, que estava sozinho, ele atacou furiosamente e fez dele seu repasto.

Esta fábula mostra que os insubordinados e inflexíveis caem em desgraça de uma hora para outra, pois se deixam levar pela obstinação e prescindem de qualquer ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 395