Fedro 4.17

Sobre as cabras barbudas

Como as cabras tivessem obtido de Júpiter barba,

os bodes, entristecidos, começaram a ficar indignados

porque as fêmeas tinham igualado sua dignidade.

“Deixai”, diz [Júpiter] “que elas desfrutem de uma glória vã

e usurpem o ornato de vossa função, 5

contanto que não sejam iguais às vossas forças”.

Este enredo aconselha a que suportes que sejam semelhantes

a ti no aspecto exterior os que são diferentes em valor.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.3

A cabra e o cabreiro

Certa vez um pastor chamava as cabras para o cercado

e levá-las para o aprisco; umas vieram e outras, não.

Numa desobediente que comia no barranco

doce folhagem de cabralea e de lentisco,

ele acertou de longe uma pedra e quebrou-lhe o chifre. 5

Então se pôs a pedir-lhe: “ô cabrita, colega de servidão,

em nome de teu Pã, que vigia os vales frondosos,

não me denuncies, cabrita, ao nosso patrão;

pois foi sem querer que joguei a pedra e acertei o alvo.”

Ela disse: “E como posso esconder uma obra visível? 10

Meu chifre está quebrado, mesmo que eu me cale.”

[A fábula diz] que de modo nenhum se deve esconder as falhas concernentes ao Estado.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 53

A cabra e o burro

[A fábula mostra] Que quem maquina velhacarias contra outra pessoa é o principal desencadeador de seus próprios males.

Uma pessoa criava uma cabra e um burro. A cabra, que sentia inveja do burro por causa de sua ração farta, ficava dizendo: “Você tolera castigos sem fim, ora fazendo girar a moenda, ora carregando fardos”. E sugeria que ele se fingisse de epilético, caísse num buraco e lá ficasse, imóvel. Ele se deixou persuadir e caiu, quebrando-se todo. Então o dono chamou o médico e pediu ajuda. Para recobrar a saúde do burro, o médico receitou uma infusão feita com pulmão de cabra. Foi então que eles sacrificaram a cabra e medicaram o burro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 101

Esopo 54

A cabra e o pastor de cabras

Um pastor de cabras chamou suas cabras para o redil, mas uma delas ficou para trás, saboreando a pastagem. O pastor atirou contra ela uma pedra e sua boa pontaria quebrou-lhe o chifre. Depois, ficou implorando à cabra que não contasse nada ao patrão. Mas ela respondeu: “Mesmo que eu me cale, como vou esconder? Pois é evidente para todo mundo que meu chifre está quebrado!”.

[A fábula mostra] Que, quando a culpa é evidente, não há como ocultá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 102

Esopo 227

O lobo e a cabra

Um lobo viu uma cabra pastando no alto de uma escarpa e, como não conseguisse atacá-la, falou-lhe para descer um pouco mais – não fosse ela cair por descuido! – e disse que onde ele estava o prado era melhor, principalmente porque a relva estava bem viçosa. E ela respondeu: “Mas não é por causa do pasto que você está me chamando. É que você mesmo não tem o que comer!”.

Assim, também, os homens malfeitores, quando praticam maldade perto de quem os conhece, não tiram proveito de seus artifícios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 329

Esopo 288

O pastor de cabras e as cabras selvagens

Um pastor tocou suas cabras para o pasto e, ao vê-las confundidas com cabras selvagens, tangeu todas juntas, ao anoitecer, para sua gruta. No dia seguinte, uma forte borrasca o impediu de levá-las à costumeira pastagem. Então ele se pôs a cuidar delas lá dentro: às suas próprias cabras dava comida na quantia exata para elas não sentirem fome, mas às estranhas adicionava muito mais, no intuito de tomá-las para si. Findo o temporal, ele as conduziu todas juntas para o pasto, mas as cabras selvagens, quando alcançaram os montes, puseram-se em fuga. O pastor começou a acusá-las de ingratidão, visto que o estavam deixando após terem recebido tratamento diferenciado. Elas, então, se voltaram e disseram: “Mas é por isso mesmo que ficamos mais alertas, pois se você, desmerecendo suas companheiras de longa data, concedeu privilégios a nós, que só ontem nos tornamos suas conhecidas, é claro que, mais tarde, se outras cabras também surgirem, você dará primazia a elas e não a nós!”.

A fábula mostra que não devemos acolher os afetos que concedem das pessoas privilégios a nós, seus amigos recentes, em detrimento dos amigos de longa data. Devemos considerar que, mesmo que nossa amizade se torne duradoura, elas vão sempre dar preferência para aqueles com quem venham a travar amizade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 410

Esopo 352

O touro e as cabras selvagens

Um touro, perseguido por um leão, fugiu para dentro de uma gruta, onde havia cabras selvagens. Enquanto apanhava delas, recebendo chifradas, disse: “Mas eu aguento isso porque tenho medo, não de vocês, mas daquele que está parado na entrada da gruta”.

Assim, muitos homens, de medo dos mais fortes, também suportam as insolências dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 500