Um cachorro para um cordeiro
Um cão disse para um cordeiro que vagueava entre as cabritas:
“Estás enganado, seu tolo; tua mãe não está aqui”.
E mostrou ao longe as ovelhas segregadas.
“Não quero aquela que concebe quando lhe dá vontade,
em seguida carrega um peso incerto pelos meses determinados, 5
por último abandona a carga caída no chão;
mas aquela que me alimenta, aproximando-me seu úbere,
e priva seus filhos do leite para que não falte a mim”.
“No entanto é preferível aquela que te deu à luz”. “Não é assim.
De onde ela soube se eu nasceria negro ou branco? 10
Além disso, se ela tivesse querido parir uma fêmea,
de que lhe serviria, já que eu estava sendo gerado macho?
Grande bem ela me deu, sem dúvida, com meu nascimento:
foi para que eu ficasse esperando o açougueiro a cada hora!
Seu poder de decisão ao gerar foi nulo, 15
por que seria ela preferível à que se condoeu do enjeitado
e demonstra espontaneamente sua doce benevolência?
A bondade faz os pais, não o laço familiar”.
[Com estes versos o autor quis demonstrar que os homens
resistem às leis e são cativados pelas coisas oferecidas.] 20
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.