Fedro 5.10

O cão, o javali e o caçador

Um cão forte e veloz contra todas as feras,

embora sempre tivesse satisfeito ao seu dono,

com os anos pesando, começou a enfraquecer-se.

Certa vez, lançado à luta com um hirsuto javali,

agarrou-lhe a orelha; mas por causa de seus dentes estragados 5

soltou a presa. Então o caçador, lamentando,

repreendia o cão. Em resposta a ele, o velho lacedemônio:

“Não te abandonou a minha coragem, mas as minhas forças.

Louva o que fomos, se já condenas o que somos”.

Vês bem, Fileto, por que escrevi isto. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.92

O caçador e o leão

De um leão um caçador nem um pouco destemido

seguia as pegadas em densas florestas das montanhas.

Ao deparar com um lenhador junto de um alto pinheiro

disse: “Imploro-te, pelas ninfas, acaso tens notado

as pegadas de um leão que se entoca por aqui?” 5

E ele falou: “Mas há um deus em teu caminho!

Pois eu já vou te mostrar o próprio leão!”

Mas o outro, empalidecido, batendo os dentes

fala: “Não me favoreças além do que eu preciso,

diz só a pegada; não me mostres o leão.” 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.12

O cervo junto à fonte

Esta narração é testemunha de que, muitas vezes, se revelam

mais úteis as coisas que desprezas do que as louvadas.

Um cervo, quando bebia junto à fonte, parou

e viu na água a sua imagem.

Aí, enquanto louvava admirando seus ramosos chifres 5

e criticava a demasiada finura de suas pernas,

aterrado subitamente pelas vozes dos caçadores,

pôs-se a fugir pelo campo e com sua corrida ligeira

enganou os cães. Então o bosque abrigou o animal

e nele, impedido pelos chifres retidos 10

começou a ser dilacerado pelas cruéis mordidas dos cães.

Diz-se que então, enquanto morria, emitiu esta voz:

“Ó desgraçado de mim! que só agora entendo

quão útil foi para mim o que eu tinha desprezado

e o que eu tinha louvado quanto sofrimento me trouxe.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 57

O caçador covarde e o lenhador

Um caçador que estava procurando pegadas de um leão perguntou a um lenhador se ele tinha visto as pegadas e onde o leão estava deitado. “Vou já lhe mostrar o próprio leão!”, respondeu o lenhador. E o caçador, amarelo de medo e batendo os dentes, replicou: “Só estou procurando as pegadas, e não o próprio leão!”.

Os atrevidos e covardes a fábula censura, os que são destemidos no falar e não no agir.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 108

Esopo 58

O caçador de passarinhos e a cigarra

Fábula do caçador de passarinhos, a qual exorta a não se atentar nas palavras, mas nos fatos.

Ao ouvir uma cigarra, um caçador de passarinhos achou que iria caçar uma grande presa e foi se aproximando, enquanto calculava, pela altura do canto, o tamanho da caça. Mas, quando manobrou a visgueira e apanhou a caça, teve em mãos um canto, nada mais que isso. E depois ficou recriminando a presunção, que leva muitos homens a formular falsos julgamentos.

Assim, as pessoas insignificantes tentam parecer bem mais do que são de fato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 109

Esopo 59

O caçador de passarinhos e a víbora

Um caçador de passarinhos pegou o visgo e os caniços e partiu para a caça. Quando avistou um tordo pousado numa árvore alta, resolveu apanhá-lo. Então emendou os caniços no sentido do comprimento e ficou olhando fixamente, com toda a atenção voltada para o ar. E, enquanto mantinha a cabeça erguida assim, pisou sem perceber numa víbora que dormia diante de seus pés. Ela se virou e deu-lhe uma picada. E ele, moribundo, disse para si: “Que desgraçado sou eu, que quis agarrar uma presa e, sem perceber, tornei-me presa da morte!”.

Assim, aqueles que costuram maquinações contra próprios os primeiros os vizinhos são eles a cair em desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 110

Esopo 60

O caçador e o cão

Um caçador viu um cão que vinha ao seu encontro e se pôs a atirar-lhe pedaços de pão, um atrás do outro. Então o cão disse para o homem: “Fulano, desista de mim. Sua extrema boa vontade me deixa, ao contrário, muitíssimo incomodado!”.

Essa fábula mostra que aqueles que oferecem às pessoas muitos presentes é claro que estão tentando solapar a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 111

Esopo 61

O caçador e o cavaleiro

Um caçador seguia seu caminho carregando um coelho que havia caçado, quando deparou com um homem montado num cavalo. O cavaleiro fez perguntas sobre o coelho com o intuito de comprá-lo e, assim que pegou o coelho das mãos do caçador, saiu em disparada. O caçador tentou correr atrás dele para alcançá-lo, mas o cavaleiro mantinha-se a uma grande distância. Desacorçoado, o caçador o chamou e disse: “Vai embora de uma vez! Eu já te dei o coelho de presente mesmo!”.

Essa fábula mostra que muitos que são despojados de seus bens à força passam a fazer de conta que os deram de presente por querer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 114

Esopo 62

O caçador e o lobo

Ao ver um lobo atacando o rebanho e dilacerando o maior número de ovelhas que podia, um caçador o apanha por meio de um bom ardil, atiça os cães contra ele e, em seguida, lhe vocifera: “Ô, bicho ordinário, cadê sua força de antes? Você não está sendo capaz de nem mesmo enfrentar os cães!”.

Essa fábula mostra que todo ser humano alcança renome graças à habilidade que lhe é peculiar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 115

Esopo 107

A corça e a videira

Uma corça estava sendo perseguida por caçadores e foi se esconder embaixo de uma videira. Ao notar que eles tinham passado reto e já estavam um pouco mais adiante, a corça retrocedeu e começou a comer das folhas da videira. Mas um dos caçadores se voltou e, ao avistá-la, atirou o dardo contra ela, abatendo-a. Prestes a morrer, a corça disse entre gemidos: “Bem feito para mim, pois eu não deveria ter maltratado a videira, minha protetora!”.

A fábula poderia ser dita para aqueles homens que, por seus benfeitores, são castigados maltratarem pelos deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 166