Esopo 131

A formiga e a pomba

Uma formiga sedenta desceu a uma fonte para beber, mas começou a afogar-se. Então, uma pomba, pousada numa árvore ao lado, arrancou um galhinho e lançou-o na água. A formiga subiu nele e salvou-se. Mais tarde, um caçador de passarinhos parou ali e, no desejo de apanhar a pomba, montou seus caniços com visgo. Então a formiga veio e deu uma mordida no pé do caçador. Ele se desequilibrou, sacudiu os caniços e, como resultado, a pomba fugiu e se salvou.

Também os pequenos gestos podem trazer grandes retornos aos benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 199

Esopo 143

Os gansos e os grous

Gansos e grous viviam num mesmo prado. Quando vieram os caçadores, os grous, que eram leves, alçaram voo, mas os gansos permaneceram onde estavam devido ao peso do corpo e foram agarrados.

Assim, também, os homens pobres, que não têm peso para carregar, quando ocorrem levantes numa cidade mudam facilmente para outra, mas os ricos muitas vezes permanecem causa do excesso de onde estão, por bens, e perecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 216

Esopo 186

O javali, o cavalo e o caçador

Um javali e um cavalo viviam num mesmo pasto. E, como o javali a todo momento destruía a relva e turvava a água, o cavalo tomou a decisão de vingar-se e recorreu a um caçador. Este lhe respondeu que não podia socorrê-lo, a não ser que ele aceitasse uma rédea e o levasse na garupa. O cavalo sujeitou-se a tudo. E o caçador, montado sobre ele, deu cabo do javali e, depois, conduziu o cavalo à cocheira, onde o prendeu.

Assim, muitas pessoas, movidas por uma cólera irracional, caem elas mesmas submissas a outrem, por desejarem vingar-se dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 278

Esopo 207

O leão e o rato agradecido

Enquanto um leão dormia, um rato passeava pelo seu corpo. Nisso, ele despertou e o agarrou, e já ia devorá-lo, quando o rato começou a pedir que o soltasse, dizendo que, se o deixasse são e salvo, iria retribuir-lhe esse favor. O leão desandou a rir e soltou-o. Aconteceu, porém, que não demorou muito para ele ser salvo pela gratidão do rato. Tendo sido apanhado por caçadores, o leão foi amarrado com uma corda a uma árvore. Nesse instante o rato ouviu os gemidos dele, foi até lá e roeu a corda. E disse, após libertá-lo: “Certa vez você caçoou de mim porque não contava receber de minha parte uma recompensa. Agora, porém, esteja certo de que também entre os ratos há gratidão!”.

A fábula mostra que as situações mudam e os muito poderosos passam a precisar dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 303

Esopo 330

A raposa e o lenhador

Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 468

Esopo 350

O tordo no pé de mirto

Num bosque de mirtos vivia um tordo, que de lá não arredava pé, por causa dos frutos adocicados. Então, um caçador, ao notar que ele se regalava naquele local, preparou o visgo e prendeu-o. E ele, ao morrer, disse: “Pobre de mim! Por causa de um doce alimento estou perdendo a vida”.

A fábula é oportuna para homem libertino, que se perde na luxúria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 498