Bábrio 1.79

A cadela que carregava carne

Uma cadela roubou carne de um açougueiro

e foi para junto de um rio. Na superfície da água

avistou o reflexo da carne em tamanho muito maior.

Então desfez-se da carne e lançou-se sobre o reflexo.

Não encontrando o reflexo nem a carne que rejeitara, 5

pôs-se a trilhar faminta o caminho de volta.

     [Insegura é a vida de todo homem insaciável

que se consome em vãs esperanças de negócios.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.19

A cadela prestes a dar cria

As lisonjas de um homem mau têm armadilhas:

os versos que seguem advertem para que as evitemos.

Como uma cadela prestes parir pedisse a uma outra

para ter a cria em seu abrigo, facilmente

obteve a permissão; depois, à outra, que pedia de volta o lugar, 5

dirigiu súplicas, pedindo mais um tempinho,

até que ela pudesse levar seus filhotes mais fortalecidos.

Esgotado também este tempo, a outra começou a exigir com firmeza

o seu cubículo.“Se para mim e minha turma

puderes ser páreo”, diz a cadela, “eu cederei o lugar.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 63

A cadela que carregava carne

Uma cadela atravessava um rio levando um pedaço de carne, quando observou na água sua própria imagem. Crente de que era outra cadela com um pedaço de carne maior, largou o seu e avançou para tomar o da outra. Sucedeu, porém, que ela ficou sem os dois, sem o que ela não alcançou, porque não existia, e sem o seu, que foi rio abaixo.

Para homem ambicioso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 117

Esopo 64

As cadelas famintas

Cadelas famintas avistaram peles encharcadas num rio. Como não conseguiam alcançá-las, combinaram entre si que primeiramente sorveriam a água e, depois, chegariam até elas. Mas sucedeu que elas foram bebendo e estouraram antes de alcançar as peles.

Assim, alguns homens se entregam tarefas arriscadas, afoitamente a na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 118

Esopo 75

O cão que usava sinete

Um cão mordia traiçoeiramente. Então o dono pendurou nele um sinete, para que todos fossem advertidos. O cão, porém, se pavoneava na praça, agitando o sinete. Então uma cadela velha lhe disse: “Por que você se exibe? Não é por mérito que está carregando isso, mas como denúncia de sua maldade oculta”.

[A fábula mostra] Que as atitudes envaidecidas dos fanfarrões são mostras evidentes de perversidade oculta.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 129

Esopo 308

A porca e a cadela

Uma porca e uma cadela se desentenderam e estavam num bate-boca. A porca jurava por Afrodite que, se a cadela não parasse, iria rasgá-la a dentadas. E a cadela dizia que a porca não estava fazendo a coisa certa, pois Afrodite a odiava, a ponto de não deixar entrar em seu templo uma pessoa que tivesse comido carne de porco. Então a porca deu o troco: “Sua chata! Não é por ódio que ela age assim comigo, mas por cuidado, para que ninguém me mate!”.

Assim, os oradores vezes convertem em avisados muitas elogios os insultos proferidos pelos adversários.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 432

Esopo 309

A porca e a cadela [disputando fertilidade]

Uma porca e uma cadela estavam discutindo para ver quem era mais fértil. E quando a cadela disse que era a única dentre os quadrúpedes a ter uma gestação curta, a porca retrucou: “Mas, ao dizer isso, reconheça que suas crias nascem cegas!”.

A fábula mostra que as tarefas devem ser julgadas não pelo tempo despendido, mas pelo bom acabamento.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 433