Esopo 70

O cão e a lebre

Após apanhar uma lebre, um cão de caça ora lhe dava mordidas, ora lambia-lhe os lábios. Então ela, interrompendo-o, lhe disse: “Ou você para de me morder, ou para de me beijar, a fim de eu saber se sua conduta é de amigo ou de inimigo”.

Para homem ambíguo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 124

Esopo 71

O cão e o açougueiro

Um cão entrou num açougue e, enquanto o açougueiro estava ocupado, roubou um coração e escapuliu. O açougueiro se virou e disse, ao vê-lo fugir: “Mas fique você sabendo que, onde quer que esteja, irei vigiá-lo. Pois você não roubou de mim um coração; pelo contrário, agora eu tenho um, que você me deu!”.

A fábula mostra que, muitas vezes, os sofrimentos se tornam ensinamentos para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 125

Esopo 72

O cão e o caramujo

Um cão acostumado a engolir ovos, assim que viu um caramujo, escancarou a boca e o engoliu numa enorme bocada, crente de que fosse um ovo. Então, sentiu um peso nas entranhas e disse, gemendo: “É bem feito para mim, se tudo o que é redondo eu acho que é ovo”.

A fábula nos ensina que aqueles que se lançam irrefletidamente a uma tarefa mergulham, sem se dar conta, em situações inusitadas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 126

Esopo 73

O cão que perseguia um lobo

Enquanto afugentava um lobo, um cão fremia, orgulhoso, da rapidez de suas patas e de seu próprio vigor, achando que o lobo fugia devido a alguma fraqueza que lhe era peculiar. Foi então que o lobo se voltou e disse ao cão: “Não é de você que tenho medo, mas da investida de seu dono”.

Essa fábula mostra que não se deve enfunar-se com a nobreza dos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 127

Esopo 74

O cão que perseguia um leão

Um cão de caça viu um leão e se pôs a persegui-lo, mas o leão se voltou e deu um rugido. Amedrontado, o cão retrocedeu. Então uma raposa o viu e disse: “Ô, cabeça oca, você estava perseguindo um leão e não podia nem com o rugido dele?”.

A fábula poderia ser contada a propósito de homens arrogantes que se põem a denegrir os mais poderosos, mas, quando eles os enfrentam, imediatamente retrocedem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 128

Esopo 75

O cão que usava sinete

Um cão mordia traiçoeiramente. Então o dono pendurou nele um sinete, para que todos fossem advertidos. O cão, porém, se pavoneava na praça, agitando o sinete. Então uma cadela velha lhe disse: “Por que você se exibe? Não é por mérito que está carregando isso, mas como denúncia de sua maldade oculta”.

[A fábula mostra] Que as atitudes envaidecidas dos fanfarrões são mostras evidentes de perversidade oculta.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 129

Esopo 76

O cão, o galo e a raposa

Um cão e um galo se tornaram amigos quando seguiam juntos por uma estrada. Ao cair da noite, chegaram a um bosque e, enquanto o galo subiu numa árvore e pousou num galho, o cão adormeceu numa fenda ao pé da árvore. A noite passou e, ao nascer da aurora, o galo se pôs a soltar sua gritaria, como de costume. Então uma raposa o ouviu e, no desejo de abocanhá-lo, se aproximou e ficou parada sob a árvore, gritando para ele: “Você é uma ave boa e de utilidade para os homens. Desça, para cantarmos serenatas e nos alegrarmos juntos”. E ele disse, em resposta: “Amiga, vá aí embaixo, diante da raiz da árvore, e chame o vigia, para ele bater na porta”. E, quando a raposa foi chamá-lo, num átimo o cão saltou sobre ela, agarrou-a e fê-la em pedaços.

A fábula mostra que assim, também, os homens sensatos, quando lhes advém alguma desgraça, com facilidade se posicionam para lutar contra ela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 130

Esopo 128

O ferreiro e o cão

Um cão, que matava o tempo na oficina de ferreiros, caía no sono enquanto eles trabalhavam. Mas quando eles se sentavam para comer o cão ficava desperto e ia todo alegre se encostar nos donos. Eles, então, lhe disseram: “Como é que você não acorda com o barulho dos malhos tão pesados, mas imediatamente desperta ao mais leve ruído de nossos molares?”.

Esta fábula mostra imediatamente que também os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem completamente apáticos em relação àquelas que não lhes agradam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 195

Esopo 151

A gralha e o cão

Uma gralha estava oferecendo um sacrifício à deusa Atena e convidou um cão para o banquete. Ele, então, lhe disse: “Por que você desperdiça sacrifícios? A deusa tem tanto ódio de você que até retirou a credibilidade de seus augúrios!”. E a gralha respondeu: “Mas é justamente por isso que estou oferecendo um sacrifício, para que ela mude seus sentimentos a meu respeito, porque sei que ela não gosta de mim”.

Assim, muitos, por medo, não vacilam em beneficiar os inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 228

Esopo 172

O homem mordido por um cão

Um homem levou uma mordida de um cão e começou a andar de um lado para o outro à procura de alguém que o curasse. Então, uma pessoa lhe disse que ele deveria limpar o sangue com um pedaço de pão e jogá-lo ao cão que o havia mordido. Ele respondeu: “Mas, se eu fizer isso, na certa serei mordido por todos os cães da cidade!”.

Assim, também, a perversidade dos homens, quando estimulada, se assanha mais ainda para praticar danos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 254