Fedro 4.4

O cavalo e o javali

Um javali, remexendo-se na água, sujou o vau

onde o cavalo tinha por costume matar a sede.

Daí surgiu o litígio. O de pés sonantes, irado com a fera,

pediu ajuda ao homem; levando este em suas costas,

voltou na direção do inimigo. Dizem que o cavaleiro, 5

depois que o matou com dardos, falou assim:

“Alegro-me de ter levado auxílio às tuas súplicas;

pois apanhei uma presa e aprendi o quanto és útil”.

E assim obrigou-o a suportar, contra a vontade, os freios.

Então ele, abatido: “Enquanto buscava louco 10

a vingança de uma pequena coisa, encontrei a escravidão”.

Esta fábula advertirá os iracundos de que é melhor

ser impunemente lesado do que se entregar a outrem.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.7

O cavalo e o asno

Um homem tinha um cavalo e costumava conduzi-lo

ao seu lado, sem carga, e colocava o fardo

sobre um asno velho. Sentindo-se então muito cansado,

o asno se aproximou do cavalo e pôs-se a confabular:

“Se quisesses em meu benefício tomar uma parte do fardo, 5

rapidamente poderia revigorar-me. Do contrário, vou morrer.’

E ele disse: “Não vais prosseguir? Não me amoles!”

Ele a custo foi-se arrastando, calado, mas, esgotado de cansaço,

caiu e jazeu morto, como havia predito.

Sem demora, para junto dele o dono trouxe 10

o cavalo, foi desatando o carregamento todo

e não só colocou sobre ele a albarda da azêmola

como pôs por cima a pele do asno, após esfolá-lo.

O cavalo dizia: “Ai de mim! que má decisão.

Aquele com quem eu não quis partilhar o pouco, 15

a necessidade o põe inteiro sobre mim”.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 47

O burro que felicitava o cavalo

[A fábula mostra] Que não devemos invejar os ricos e os que estão no poder, mas, levando em conta que eles são alvo de inveja e de ameaças, devemos estimar a pobreza, mãe da tranquilidade.

Um burro se pôs a felicitar o cavalo, por este receber alimento e cuidados especiais, e a deplorar a si mesmo e a sua sorte, dizendo que carregava fardos pesados e recebia pouca comida, ao passo que o cavalo, adornado de rédeas e testeiras, realizava percursos leves. Ia o burro tecendo tais considerações, quando sobreveio o tempo da guerra. Foi então que o general montou com suas armas no cavalo e o tocou para o campo dos inimigos. E o cavalo, ferido por golpes de espadas, acabou jazendo agonizante. Então o burro mudou de opinião e teve pena do cavalo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 91

Esopo 94

O cavalo e o cocheiro

Um cocheiro roubava a cevada do cavalo para vender, e depois passava o dia todo a esfregá-lo e alisá-lo. Então o cavalo disse: “Se você quer de verdade que eu fique bonito, não venda a cevada que me alimenta”.

[A fábula mostra] Que os ambiciosos, quando fisgam os pobres com lisonjas e palavras persuasivas, retiram deles até o essencial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 150

Esopo 95

O cavalo e o soldado

Era um tempo de guerra e um soldado alimentava seu cavalo com cevada, por julgá-lo um colaborador nas emergências. No entanto, quando a guerra acabou, o cavalo passou a cuidar de tarefas servis e de pesados fardos, e a ser alimentado apenas com palha. Mas, quando se ouviu de novo falar em guerra e a trombeta começou a soar, o dono pôs arreios no cavalo e montou nele com seus armamentos. Ele, porém, arriava a todo momento, sem forças para nada. Foi então que disse ao dono: “Agora trate de partir com os soldados da infantaria, os hoplitas, pois você me transformou, de cavalo que eu era, em burro. E como quer reaver, de um burro, um cavalo?”.

[A fábula mostra] Que, em tempos de segurança e tranquilidade, não se deve perder de vista os tempos de infortúnios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 151

Esopo 96

O cavalo velho

Um cavalo velho foi vendido para tocar uma moenda. Atrelado ao moinho, ele disse, gemendo: “Em que pista eu vim parar, depois de todas as minhas gloriosas corridas!”.

[A fábula mostra] Que uma pessoa não deve se ufanar demais de seu vigor físico e da fama, pois para muitos a velhice é consumida em padecimentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 152

Esopo 182

As idades do homem

Quando Zeus fez o homem, deu a ele uma vida breve. Mas o homem usou seu conhecimento e, quando estava próximo o inverno, fabricou para si uma casa e lá ficou vivendo. E, certa vez, quando fez um frio rigoroso e Zeus fez chover, o cavalo não pôde resistir e foi correndo à casa do homem pedir-lhe abrigo. O homem disse que só o atenderia se ele lhe cedesse uma parte de seus anos de vida. O cavalo, então, cedeu-a de bom grado. Não muito tempo depois, apareceu também o boi, pois nem ele estava podendo suportar a borrasca. Do mesmo modo, o homem disse que o acolheria se ele primeiro lhe entregasse um certo número de seus anos de vida. O boi, então, deu uma parte e foi acolhido. Por último chegou o cão, morrendo de frio, e, tendo partilhado também uma porção de seu tempo de vida, conseguiu abrigo. O resultado disso é que os homens, quando estão no tempo concedido por Zeus, são puros e bons, mas quando vivem os anos do cavalo são fanfarrões e empertigados; quando chegam aos anos do boi, tornam-se dominadores; e quando completam o tempo do cão ficam irascíveis e resmungões.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um velho irascível e intratável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 271-272

Esopo 186

O javali, o cavalo e o caçador

Um javali e um cavalo viviam num mesmo pasto. E, como o javali a todo momento destruía a relva e turvava a água, o cavalo tomou a decisão de vingar-se e recorreu a um caçador. Este lhe respondeu que não podia socorrê-lo, a não ser que ele aceitasse uma rédea e o levasse na garupa. O cavalo sujeitou-se a tudo. E o caçador, montado sobre ele, deu cabo do javali e, depois, conduziu o cavalo à cocheira, onde o prendeu.

Assim, muitas pessoas, movidas por uma cólera irracional, caem elas mesmas submissas a outrem, por desejarem vingar-se dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 278

Esopo 232

O lobo e o cavalo

Ao caminhar por uma plantação, um lobo encontrou cevada, mas, como não podia usá-la como alimento, abandonou-a. Estava indo embora, quando encontrou um cavalo. Então o lobo tentou conduzi-lo até a plantação, dizendo que tinha encontrado cevada, mas não a comera, pois a deixara reservada para ele, sobretudo porque sentia prazer em ouvir o barulho de seus dentes. E o cavalo disse, em resposta: “Mas se lobos pudessem se alimentar de cevada, você jamais teria posto as orelhas na frente do estômago!”.

A fábula mostra que os perversos por natureza não merecem confiança, mesmo que façam alarde de boas intenções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 335