Fedro 1.26

A raposa e a cegonha

A ninguém se deve prejudicar; se alguém, porém, fizer algum dano,

a fabulazinha adverte que deve ser castigado na mesma moeda.

Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha

para um jantar e lhe serviu num prato raso

um caldo líquido, que de nenhum modo 5

a cegonha faminta poderia degustar.

Quando esta retribuiu o convite à raposa, serviu uma garrafa

cheia de alimento triturado; inserindo nela o seu bico,

ela própria se sacia e atormenta de fome sua convidada.

Enquanto esta lambia em vão o pescoço da garrafa, 10

a ave peregrina, pelo que ouvimos, falou assim:

“Cada um deve suportar com igual ânimo os seus próprios exemplos.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 283

O passarinheiro e a cegonha

Um passarinheiro estendeu redes com visgo e ficou espreitando a caça de longe. E, assim que uma cegonha pousou entre os visgos, ele foi correndo apanhá-la. Ela, então, lhe pediu que a soltasse, dizendo que não era nociva aos homens; bem ao contrário, era muito útil, pois apanhava e matava as serpentes e os demais répteis. Então o passarinheiro respondeu: “Mas se realmente você não é maléfica, merece punição exatamente por isto: por envolver-se com malvados”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar o convívio com os malvados, para não passar a impressão de sermos coniventes com a maldade deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 404