Esopo 315

As rãs que pediam um rei

Chateadas por viverem sem governo, as rãs enviaram a Zeus embaixadores pedindo que lhes desse um rei. E o deus, vendo como elas eram ingênuas, lançou no brejo um pedaço de pau. De imediato, as rãs, sobressaltadas com o barulho, se mandaram para o fundo do brejo. Mas depois, como o pau não se mexia, elas voltaram à tona e chegaram a tal ponto de descaso que trepavam nele e lá ficavam empoleiradas. Decepcionadas com um rei como aquele, as rãs foram a Zeus uma segunda vez para pedir que lhes trocasse o governante, pois aquele primeiro era muito bonachão. Foi aí que Zeus perdeu a paciência e lhes mandou uma cobra-d’água, que agarrou e devorou todas elas.

A fábula mostra que é melhor ter chefes indolentes e sem maldade do que chefes turbulentos e maldosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 443

Esopo 371

A víbora e a cobra-d’água

Uma víbora ia regularmente beber numa fonte. Então, uma cobra-d’água, que morava na fonte, tentava impedi-la, indignada porque a outra, não contente com seu próprio território, também avançava no dela. E, como a desavença aumentava, elas resolveram que iriam às vias de fato e que os dois espaços, o da terra e o da água, seriam do vencedor. Marcado o dia, as rãs, que detestavam a cobra-d’água, procuraram a víbora para encorajá-la e prometeram que também combateriam ao lado dela. Quando o combate começou, a víbora se pôs a lutar contra a cobra-d’água e saiu vencedora, apesar de as rãs não terem feito outra coisa além de soltar gritos. Mesmo assim, a víbora as recriminou, porque elas haviam prometido atuar no combate como aliadas e, no entanto, além de não a terem socorrido, ainda por cima ficaram cantando. Então, as rãs disseram: “Mas você esteja certa de que nossa aliança consiste não em mãos, mas apenas em sons!”.

A fábula mostra que, lá onde há necessidade de mãos, de nada adianta a ajuda de palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 527