Fedro 3.15

Um cachorro para um cordeiro

Um cão disse para um cordeiro que vagueava entre as cabritas:

“Estás enganado, seu tolo; tua mãe não está aqui”.

E mostrou ao longe as ovelhas segregadas.

“Não quero aquela que concebe quando lhe dá vontade,

em seguida carrega um peso incerto pelos meses determinados, 5

por último abandona a carga caída no chão;

mas aquela que me alimenta, aproximando-me seu úbere,

e priva seus filhos do leite para que não falte a mim”.

“No entanto é preferível aquela que te deu à luz”. “Não é assim.

De onde ela soube se eu nasceria negro ou branco? 10

Além disso, se ela tivesse querido parir uma fêmea,

de que lhe serviria, já que eu estava sendo gerado macho?

Grande bem ela me deu, sem dúvida, com meu nascimento:

foi para que eu ficasse esperando o açougueiro a cada hora!

Seu poder de decisão ao gerar foi nulo, 15

por que seria ela preferível à que se condoeu do enjeitado

e demonstra espontaneamente sua doce benevolência?

A bondade faz os pais, não o laço familiar”.

[Com estes versos o autor quis demonstrar que os homens

resistem às leis e são cativados pelas coisas oferecidas.] 20

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.89

O lobo e o cordeiro

Um lobo certa vez avistou um cordeiro desgarrado

do rebanho e não investiu sobre ele para agarrá-lo à força;

antes, buscou encontrar um motivo de hostilidade bem arranjado.

“Foste tu que, ainda pequeno, no ano passado me injuriaste.”

“Eu? A ti? No ano passado? Mas nem faz um ano que nasci!” 5

“Mas és tu que tosas a lavoura que é minha, não é?”

“Ainda não comi comida verde e nem fui levado à pastagem.”

“E acaso não tens bebido desta fonte em que eu bebo?”

“Até hoje a teta de minha mãe é que me inebria.”

Nisso então ele agarrou o cordeiro e, devorando-o, 10

disse: “Mas tu não deixarás o lobo sem jantar,

ainda que habilmente me desmontes toda acusação.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.1

O lobo e o cordeiro

A um mesmo rio tinham vindo um lobo e um cordeiro,

compelidos pela sede. O lobo estava mais acima

e, bem mais abaixo, o cordeiro. Então, incitado por sua goela

perversa, o bandido suscitou um motivo de briga.

“Por que”, diz ele, “me tornaste suja a água, 5

que estou bebendo?” O lanígero, em resposta, morrendo de medo:

“Como posso, pergunto, fazer isso de que te queixas, lobo?

É de ti para os meus goles que a água corre”.

Repelido pela força da verdade, diz aquele:

“Há seis meses falaste mal de mim”. 10

Respondeu o cordeiro: “Mas eu nem era nascido”.

“O teu pai, por hércules”, diz aquele, “falou mal de mim”.

E assim, o agarra e dilacera com injusta morte.

Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens

que. com falsos motivos, oprimem os inocentes. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 225

O leitão e os cordeiros

Um leitão se meteu num rebanho de cordeiros e ali ficou pastando. Mas um dia, o pastor o agarrou e ele se pôs a berrar e a espernear. Então os cordeiros lhe chamaram a atenção, por causa de seus berros, dizendo: “Ele nos agarra constantemente e nós não gritamos!”. Ele respondeu: “Mas ele me agarra diferente! Ele cerca vocês por causa da lã ou do leite, mas de mim ele quer a carne!”.

A fábula mostra que têm razão de chiar aqueles que veem ameaçadas não suas posses, mas suas vidas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 326

Esopo 233

O lobo e o cordeiro

Um lobo viu um cordeiro bebendo água de um rio e desejou devorá-lo com um pretexto bem articulado. Assim, postou-se mais acima e começou a recriminá-lo, dizendo que ele estava turvando a água e impedindo-o de beber. O cordeiro respondeu que bebia com a ponta dos lábios e que, de mais a mais, não podia ser que ele, que estava abaixo, estivesse turvando a água do lado de cima. E o lobo, fracassando nessa acusação, disse: “Mas no ano passado você injuriou meu pai!”. E, como o cordeiro revidou que naquela época ele ainda não tinha um ano de vida, o lobo lhe disse: “Ora, se suas defesas forem bem-sucedidas, eu não vou comer você!”.

A fábula mostra que, junto daqueles cujo propósito é praticar a injustiça, nenhuma defesa justa tem valor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 336

Esopo 234

O lobo e o cordeirinho

Um cordeirinho estava sendo perseguido por um lobo e buscou refúgio num templo. Então o lobo se pôs a chamá-lo e a dizer que, se o sacerdote o apanhasse, iria sacrificá-lo ao deus. O cordeirinho respondeu: “Mas para mim é mais aceitável ser sacrificado a um deus do que ser morto por você”.

A fábula mostra que, se é imperioso morrer, é melhor morrer com glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 337

Esopo 239

O lobo machucado e o cordeiro

Tendo sido mordido por cães, um lobo estava passando mal e permanecia estirado no chão, sem condições de ir à cata de comida para si. Mas, nisso, ele viu um cordeiro e pediu a ele que lhe arrumasse um pouco da água de um rio que corria perto dali. “Pois se você me der de beber, eu vou achar comida para mim”, disse ele. O cordeiro, porém, rebateu: “Mas se eu lhe servir a bebida, sou eu que vou virar sua comida!”.

Para homem malfeitor que prepara emboscada por meio de subterfúgios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 342

Esopo 243

Os lobos e os cordeiros

Estavam uns lobos de olho num rebanho de cordeiros e, como não conseguiam agarrá-los por causa dos cães vigilantes, reconheceram que seria preciso recorrer a algum ardil. Então, mandaram embaixadores pedir aos cordeiros que lhes entregassem os cães, alegando que eram esses os responsáveis pela hostilidade que havia entre lobos e cordeiros. E que, se lhes confiassem os cães, haveria paz entre eles. Os cordeiros, então, sem prever as consequências, entregaram os cães. E os lobos, com os cães sob controle, também dizimaram facilmente o rebanho, que estava desprotegido.

Assim, também, as cidades que traem seus líderes sem mais nem menos caem rapidamente nas mãos dos inimigos sem perceber.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 348

Esopo 244

Os lobos, os cordeiros e o carneiro

Lobos enviaram embaixadores aos cordeiros para combinar com eles uma paz duradoura, desde que pudessem pegar os cães e destruí-los. E os cordeiros, tolos, concordaram com isso. Mas um carneiro velho observou: “Como vou confiar e conviver com vocês se, mesmo com cães me guardando, não consigo pastar em segurança?”.

[A fábula mostra] Que a pessoa não deve se despir de uma condição estável, fiando-se em juramentos de inimigos irreconciliáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 349

Esopo 332

A raposa que afagava um cordeirinho e o cão

Uma raposa se meteu num rebanho de ovelhas, agarrou um cordeirinho e começou a fingir que o acarinhava. “Por que você está fazendo isso?”, perguntou-lhe um cão. E ela: “Estou lhe fazendo carinho e brincando com ele!”. E o cão: “Mas agora mesmo eu vou fazer carícias de cão em você, se não deixar em paz o cordeirinho!”.

Para homem inescrupuloso e ladrão imbecil a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 470