O poeta sobre acreditar e não acreditar
É perigoso acreditar e não acreditar.
Vou pôr sucintamente um exemplo de ambas as situações.
Hipólito morreu, porque se acreditou na madrasta;
porque não se acreditou em Cassandra, Tróia ruiu.
Logo, a verdade deve ser muito investigada antes 5
de uma opinião errônea emitir um juízo tolo.
Mas, para não deixares de levar a sério a antiguidade fabulosa,
vou narrar-te um fato que está em minha memória.
Um certo marido que amava a sua esposa
e já preparava a toga branca para o filho, 10
foi chamado à parte, em um lugar retirado, por um liberto seu,
que esperava ser posto no lugar do herdeiro mais próximo.
Este, depois de ter dito muitas mentiras a respeito do menino
e muitas relativas a indecências de sua casta mulher,
acrescentou o que pensava que mais 15
iria afligir o marido: que um amante vinha frequentemente
e que a fama de sua casa era manchada por um torpe adultério.
Aquele, abrasado pelo falso crime de sua esposa,
simulou uma ida para a chácara e ficou escondido na cidade;
em seguida, à noite, entrou subitamente pela porta, 20
dirigindo-se direto para o quarto da esposa,
no qual a mãe tinha ordenado que o filho dormisse,
vigiando mais diligentemente sua idade adulta.
Enquanto buscam luz, enquanto os criados correm aqui e ali,
ele, não aguentando o ataque da furiosa ira, 25
vai até a cama, apalpa no escuro uma cabeça.
Como sente o cabelo curto, atravessa seu peito com a espada,
não reparando em nada, enquanto vinga sua dor.
Trazida uma lamparina, viu ao mesmo tempo seu filho
e sua honrada esposa dormindo no quartinho, 30
que, entorpecida pelo primeiro sono, não tinha percebido nada;
aplicou imediatamente em si a punição do crime
e deitou sobre o ferro que a credulidade tinha desembainhado.
Os acusadores denunciaram a mulher
e a arrastaram para Roma aos centúviros. 35
Uma maldosa suspeita cai sobre a inocente
porque se apossa dos bens. Ficam firmes os advogados,
defendendo a causa da inocente mulher.
Os juízes então pediram ao divino Augusto
que os ajudasse na fidelidade ao seu juramento, 40
porque um erro na condenação os implicaria.
Este, depois que dissipou as trevas da calúnia
e encontrou a fonte certa da verdade,
diz: “Que o liberto, causa desse mal, expie as penas;
pois estimo que, privada do filho e do marido ao mesmo tempo, 45
ela deve ser antes lastimada do que condenada.
Pois se o pai-de-família tivesse investigado
as acusações delatadas, se tivesse limado
com sutileza a mentira, não teria arruinado
por completo sua casa com tão funesto crime”. 50
Que o ouvido nada despreze, mas que não creia de imediato,
pois tanto erram os que achas que nunca erram,
como os que não erram são atacados pelas calúnias.
Isto pode também advertir os simplórios,
para que não apreciem nada pela opinião de outrem. 55
Pois a ambição dos mortais, que é divergente,
se associa ou ao favor ou ao seu ódio.
Será conhecido aquele que conheceres por ti mesmo.
Levei a cabo estas coisas em muitos versos por causa disto:
porque desagradei a alguns com a excessiva brevidade. 60
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.