Esopo 8

A águia e o escaravelho

Uma águia perseguia uma lebre que estava longe de qualquer proteção. Mas, assim que a lebre avistou um escaravelho, o único protetor que a ocasião lhe oferecia, ela foi até ele e suplicou ajuda. O escaravelho a amparou e, quando viu a águia se aproximando, pôs-se a pedir-lhe que não levasse embora sua protegida. A águia, porém, esnobou a pequenez do escaravelho e devorou a lebre diante dele. Ressentido, o escaravelho passou a espreitar os ninhos da águia e, cada vez que ela punha ovos, subia lá no alto e os fazia rolar e quebrar, até que a águia, encurralada, buscou refúgio junto de Zeus, que a tem como sua ave sagrada, e pediu-lhe que arrumasse um lugar seguro para a ninhada. Zeus lhe deu permissão para botar os ovos no colo dele. Ao ver isso, o escaravelho fez uma pelota de esterco, voou até alcançar o colo de Zeus e soltou-a lá. Foi aí que Zeus se levantou para sacudir o esterco e, sem se dar conta, deixou cair os ovos. Desde então, dizem que, na época em que os escaravelhos aparecem, as águias não fazem ninho.

A fábula ensina a não menosprezar pessoa alguma, considerando-se que ninguém é tão fraco a ponto de não poder um dia se vingar de um ultraje.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 42

Esopo 122

Os escaravelhos

Numa ilhota, pastava um touro, de cujo esterco se alimentavam dois escaravelhos. Quando chegou o inverno, um deles disse ao outro que pretendia voar para o continente e lá passar o inverno; assim, o amigo ficaria sozinho e teria comida suficiente. Também disse que, se encontrasse um pasto fértil, viria trazer-lhe algumas porções. Então ele foi para o continente e lá foi ficando, alimentando-se da fartura de esterco fresquinho. Passado o inverno, voou de volta à ilha e o outro, ao vê-lo muito forte e robusto, recriminou-o por não lhe ter trazido nada, apesar das promessas. Ele respondeu: “Não censure a mim, mas à natureza do lugar, pois de lá era possível retirar comida, mas não era possível levar nada”.

Esta fábula poderia aqueles que cultivam serem convidados as amizades até casar bem com para um banquete, mas, depois disso, não têm nenhuma valia para os amigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 187

Esopo 132

A formiga e o escaravelho

Era verão e uma formiga percorria os campos colhendo grãos de trigo e de cevada, que armazenava como provisão para o inverno. Então um escaravelho ficou espantado ao ver que ela se excedia no trabalho, pois se estafava numa época em que os outros animais se desobrigavam de tarefas e ficavam na boa vida. Ela, nesse momento, nem se abalou. No entanto mais tarde, quando chegou o inverno e o esterco foi se desmanchando com a chuva, o escaravelho, faminto, foi atrás dela esmolar comida. Ela, então, lhe disse: “Mas se você, escaravelho, tivesse trabalhado naquela época, quando eu me estafava e você me criticava, agora não teria precisão de comida!”.

Assim, aqueles que em tempo de fartura não se preocupam com o futuro padecem graves sofrimentos quando a situação muda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 200

Esopo 375

Zeus e a raposa

Maravilhado com o espírito sagaz e versátil da raposa, Zeus deu a ela a soberania sobre os animais irracionais. E, desejando saber se a raposa, que mudara de vida, tinha alterado também seus hábitos mesquinhos, lançou diante dela um escaravelho, justo no momento em que ela estava sendo carregada numa liteira. E a raposa, vendo o escaravelho voejando ao redor da liteira, não conseguiu se conter e, contrariando toda conveniência, deu um salto para tentar agarrá-lo. Então, Zeus ficou bronqueado com a raposa e a devolveu à sua antiga condição.

A fábula mostra que a natureza dos homens vis não se altera, mesmo que se revistam dos mais brilhantes ornamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 534