Fedro 3.19

Esopo responde a um tagarela

Como Esopo fosse o único criado de seu senhor,

lhe foi ordenado preparar o jantar mais cedo.

Então, buscando lume, percorreu algumas casas

e, por fim, encontrou onde acendesse sua lucerna;

então tornou mais curto o caminho que tinha sido 5

mais longo na ida com suas voltas e começou a voltar

em linha reta pelo foro. E um certo tagarela do meio da turba:

“Esopo, em pleno sol o que fazes com uma luz?”

“Procuro um homem”, diz ele. E foi apressado para casa.

Se aquele importuno refletiu sobre isso em seu espírito, 10

percebeu sem dúvida que não pareceu um homem para o velho

aquele que, inoportuno, disse gracejo a uma pessoa ocupada.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.3

Esopo para um certo sujeito sobre o êxito dos maus.

Um sujeito, ferido pela mordida de um cachorro bravo,

tacou para o maléfico um pedaço de pão tingido com seu sangue,

porque tinha ouvido dizer que era o remédio para o ferimento.

Então Esopo disse assim: “Não faças isso diante de mais cães,

para que eles não nos devorem vivos, 5

quando souberem ser tal o prêmio da má-ação.”

O êxito dos maus alicia a muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.ep

O autor

Os Áticos fizeram uma estátua ao talento de Esopo

e colocaram o escravo numa base eterna,

para que todos soubessem que o caminho da honra está aberto

e que a glória não é atribuída à linhagem, mas à virtude.

Visto que ele ocupara esse lugar e nenhum outro fosse o primeiro, 5

o que me restou foi esforçar-me para que ele não ficasse só.

E isso não é inveja, mas emulação.

E se o Lácio for favorável ao meu esforço,

terá mais autores para opor à Grécia.

Se a Inveja quiser criticar o meu trabalho, 10

não me tirará, contudo, a consciência do louvor.

Se o nosso zelo chega a uns ouvidos cultos

e o espírito aprecia as fábulas inventadas com arte,

a minha felicidade afasta todo queixume.

Se, porém, meu douto trabalho topa com charlatães, 15

que a natureza sinistra trouxe à luz,

e não podem criticar nada a não ser os melhores,

suportarei com o coração endurecido a fatal desgraça,

até que a fortuna se envergonhe de seu crime.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.3

A gralha presunçosa e o pavão

Para que ninguém se meta a vangloriar-se com bens alheios

mas, antes, procure levar a vida conforme sua própria condição,

Esopo nos apresentou este exemplo.

Uma gralha, impada de vão orgulho,

pegou do chão as penas que tinham caído de um pavão 5

e se enfeitou. Em seguida, desprezando os seus,

se misturou a um formoso bando de pavões.

Estes, porém, arrancam as penas da ave descarada

e a afugentam a bicadas. Duramente desancada, a gralha,

abatida, pôs-se a voltar para junto dos de sua espécie; 10

repelida por eles, teve de aguentar uma triste infâmia.

Então uma daquelas que ela tinha desprezado antes:

“Se tivesses ficado contente com nossas moradas

e aceitado conformar-se com o que a natureza te dera,

nem terias sofrido aquela afronta 15

nem a tua desgraça sentiria esta repulsa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.6

As rãs para o sol

As concorridas núpcias de um ladrão, vizinho seu,

viu Esopo e, de imediato, começou a narrar:

Como um dia o Sol quisesse casar-se,

as rãs ergueram para os astros uma gritaria.

Movido pelo alvoroço, quis Júpiter saber 5

o motivo da queixa. Então, uma habitante do charco

disse: “Agora um só já seca todos os lagos

e nos obriga a morrer desgraçadas numa árida morada.

O que acontecerá então, se ele gerar filhos?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.10

O lobo e a raposa com o macaco como juiz

Todo aquele que se tornou famoso uma vez por uma torpe mentira,

mesmo que diga a verdade, perde o crédito.

Atesta isso uma breve fábula de Esopo.

Um lobo acusava uma raposa pelo crime de furto;

ela negava ter relação com a culpa. 5

Então o macaco se sentou entre eles como juiz.

Depois que um e outro defenderam sua causa,

diz-se que o macaco pronunciou a sentença:

“Tu não pareces ter perdido o que pedes;

quanto a ti, creio que roubaste o que negas lindamente”. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 124

Esopo no estaleiro

Como não tivesse nada para fazer, o fabulista Esopo foi até um estaleiro. Os construtores de navios puseram-se a caçoar dele e a provocá-lo para um desafio. Então Esopo disse que, antigamente, havia caos e água e que Zeus, desejando pôr à mostra a porção de terra, sugeriu que ela tragasse o mar três vezes. Ela começou e, na primeira tragada, fez aparecer as montanhas; na segunda, pôs a descoberto também as planícies. “E, se ela resolver dar a terceira tragada de água, a profissão de vocês não terá mais serventia.”

A fábula mostra que aqueles que tentam fazer troça dos melhores, sem perceber granjeiam para si mesmos, da parte deles, chateações maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 189