Fedro 3.8

A irmã e o irmão

Aconselhado por esta lição, examina-te com frequência.

Um certo homem tinha uma filha muito feia,

e tinha também um filho notável por seu lindo rosto.

Estes, em meio às brincadeiras infantis, viram por acaso

um espelho que tinha sido colocado na cadeira de sua mãe. 5

Este se gaba de ser belo; aquela se irrita

e não aguenta as brincadeiras de seu vaidoso irmão,

recebendo, é claro, tudo como afronta.

Então correu até o pai com intuito de vingar-se,

e com grande inveja, acusou o filho 10

de, tendo nascido homem, ter tocado num objeto de mulheres.

Aquele abraçou a ele e a ela e, enchendo-os de beijos

e repartindo seu doce amor para com ambos,

diz: “Quero que diariamente vós vos utilizeis do espelho,

tu, para não estragares tua beleza com os males da depravação, 15

e tu, para que venças esse teu rosto com teus bons costumes”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.10

O poeta sobre acreditar e não acreditar

É perigoso acreditar e não acreditar.

Vou pôr sucintamente um exemplo de ambas as situações.

Hipólito morreu, porque se acreditou na madrasta;

porque não se acreditou em Cassandra, Tróia ruiu.

Logo, a verdade deve ser muito investigada antes 5

de uma opinião errônea emitir um juízo tolo.

Mas, para não deixares de levar a sério a antiguidade fabulosa,

vou narrar-te um fato que está em minha memória.

Um certo marido que amava a sua esposa

e já preparava a toga branca para o filho, 10

foi chamado à parte, em um lugar retirado, por um liberto seu,

que esperava ser posto no lugar do herdeiro mais próximo.

Este, depois de ter dito muitas mentiras a respeito do menino

e muitas relativas a indecências de sua casta mulher,

acrescentou o que pensava que mais 15

iria afligir o marido: que um amante vinha frequentemente

e que a fama de sua casa era manchada por um torpe adultério.

Aquele, abrasado pelo falso crime de sua esposa,

simulou uma ida para a chácara e ficou escondido na cidade;

em seguida, à noite, entrou subitamente pela porta, 20

dirigindo-se direto para o quarto da esposa,

no qual a mãe tinha ordenado que o filho dormisse,

vigiando mais diligentemente sua idade adulta.

Enquanto buscam luz, enquanto os criados correm aqui e ali,

ele, não aguentando o ataque da furiosa ira, 25

vai até a cama, apalpa no escuro uma cabeça.

Como sente o cabelo curto, atravessa seu peito com a espada,

não reparando em nada, enquanto vinga sua dor.

Trazida uma lamparina, viu ao mesmo tempo seu filho

e sua honrada esposa dormindo no quartinho, 30

que, entorpecida pelo primeiro sono, não tinha percebido nada;

aplicou imediatamente em si a punição do crime

e deitou sobre o ferro que a credulidade tinha desembainhado.

Os acusadores denunciaram a mulher

e a arrastaram para Roma aos centúviros. 35

Uma maldosa suspeita cai sobre a inocente

porque se apossa dos bens. Ficam firmes os advogados,

defendendo a causa da inocente mulher.

Os juízes então pediram ao divino Augusto

que os ajudasse na fidelidade ao seu juramento, 40

porque um erro na condenação os implicaria.

Este, depois que dissipou as trevas da calúnia

e encontrou a fonte certa da verdade,

diz: “Que o liberto, causa desse mal, expie as penas;

pois estimo que, privada do filho e do marido ao mesmo tempo, 45

ela deve ser antes lastimada do que condenada.

Pois se o pai-de-família tivesse investigado

as acusações delatadas, se tivesse limado

com sutileza a mentira, não teria arruinado

por completo sua casa com tão funesto crime”. 50

Que o ouvido nada despreze, mas que não creia de imediato,

pois tanto erram os que achas que nunca erram,

como os que não erram são atacados pelas calúnias.

Isto pode também advertir os simplórios,

para que não apreciem nada pela opinião de outrem. 55

Pois a ambição dos mortais, que é divergente,

se associa ou ao favor ou ao seu ódio.

Será conhecido aquele que conheceres por ti mesmo.

Levei a cabo estas coisas em muitos versos por causa disto:

porque desagradei a alguns com a excessiva brevidade. 60

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.24

A rã que arrebentou e o boi

O fraco, quando quer imitar o forte, perece.

Certa vez, uma rã avistou um boi no prado

e, tocada pela inveja de tão grande corpulência,

estufou sua rugosa pele; então a seus filhos

perguntou se estava maior do que o boi. 5

Eles disseram que não. Novamente ela estirou a pele

com maior esforço e, de modo semelhante, perguntou

quem era maior. Eles disseram o boi.

Por fim, indignada, querendo mais vigorosamente

inflar-se, morreu com o corpo arrebentado. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 198

O lavrador e seus filhos

Um lavrador à beira da morte desejava que seus filhos adquirissem experiência na lavoura. Chamou-os, então, para junto de si e disse: “Meus filhos, numa de minhas vinhas há um tesouro”. Logo depois que o pai faleceu, eles pegaram os forcados e as charruas e revolveram toda a plantação. Tesouro, na verdade, não encontraram, mas a vinha lhes deu em recompensa múltiplas cargas de frutos.

A fábula mostra que o trabalho é um tesouro para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 293

Esopo 199

O lavrador e seus filhos que viviam em discórdia

Um lavrador tinha filhos que viviam em discórdia e, apesar de seus muitos conselhos, não conseguia persuadi-los só com palavras a mudar de comportamento. Então concluiu que era preciso fazê-lo por meio de uma ação. Assim, propôs que eles trouxessem um fardo de lenha. Realizada essa tarefa, o lavrador lhes deu, primeiro, o fardo amarrado e ordenou que o quebrassem, mas eles não conseguiram quebrá-lo, apesar de todo o esforço que fizeram. Em seguida, ele desamarrou o fardo e foi lhes entregando um galho por vez, que eles iam quebrando sem dificuldade. E disse-lhes, depois: “Pois é. Assim, também vocês, meus filhos, se permanecerem amigos, serão invencíveis para os inimigos. Mas, se viverem em discórdia, serão presas fáceis”.

A fábula mostra que mais forte quanto a concórdia é tão facílima de vencer é a discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 294

Esopo 245

A macaca e seus filhotes

Dizem que as macacas geram dois filhotes e que a um deles dão afeto e criam com dedicação, ao passo que rejeitam o outro e não cuidam dele. Acontece que, por uma fatalidade divina, aquele que é tratado com afeto morre, enquanto o outro, o rejeitado, desenvolve-se bem.

A fábula mostra que a fatalidade é mais poderosa que qualquer previdência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 353