Esopo 133

O gaio e a raposa

Um gaio faminto pousou numa figueira. Como encontrasse ainda verdes os figos temporões, ficou lá esperando até que eles ficassem maduros. Então uma raposa viu que o gaio se eternizava ali e, ao saber do motivo, disse: “Mas você se engana, meu caro, entregando-se a uma esperança que sabe ludibriar, mas alimentar, jamais”.

Para homem mentiroso, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 203

Esopo 134

O gaio e as pombas

Ao ver pombas bem tratadas num pombal, um gaio se branqueou e foi participar do modo de viver delas. E, enquanto ficava em silêncio, as pombas o aceitavam, crentes de que ele era uma delas. Mas no exato momento em que o gaio se distraiu e soltou um grito, elas o enxotaram, pois estranharam a voz. E ele, sem ter conseguido alimentar-se, voltou novamente para junto dos gaios. Mas eles não o reconheceram por causa de sua cor e o barraram como companheiro de refeição. Desse modo, o gaio, que tinha dois interesses, não alcançou nenhum.

Pois é. Portanto, é nós nos contentemos com nossas posses, preciso que também considerando que a ambição, além de não servir para nada, muitas vezes também dissipa nossos bens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 204

Esopo 135

O gaio e os corvos

Um gaio que se distinguia dos demais pelo tamanho menosprezou os de sua raça e foi ter com os corvos, julgando que o certo era conviver com eles. Mas eles estranharam seu aspecto e sua voz e o enxotaram a bicadas. E ele, rejeitado, voltou para os gaios. Estes, porém, indignados com aquela insolência, não lhe deram acolhida. Assim, aconteceu que o gaio acabou excluído das duas comunidades.

Assim, também, os homens que abandonam a pátria para dar preferência a terras estrangeiras aí não gozam de estima, por serem estrangeiros, e são repudiados pelos compatriotas, por tê-los menosprezado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 205

Esopo 136

O gaio e os pássaros

Zeus, pretendendo instituir o rei dos pássaros, marcou uma data em que eles deveriam se apresentar como canditados. Então, um gaio, consciente de que não tinha chance devido à sua feiura, aproximou-se, recolheu as penas que caíam de outros pássaros e prendeu-as ao redor de seu corpo. Quando chegou o dia marcado, o gaio, multicolorido, foi também até Zeus. Mas na hora em que Zeus estava prestes a levantar a mão para designar rei o gaio por conta de seu esplêndido visual, os pássaros indignados o rodearam e cada um arrancou dele a pena que lhe pertencia. Então, aconteceu que ele, depenado, voltou a ser gaio.

Assim, também, os homens devedores, enquanto estão com a riqueza alheia, acham que são os tais, mas quando a devolvem mostram ser exatamente o que eram desde o início.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 206

Esopo 137

O gaio fugido

Uma pessoa apanhou um gaio e, depois de amarrar os pés dele com um cordão de linho, entregou-o ao filho. O gaio, porém, não suportava o modo de vida dos homens e, assim que teve um pouco de liberdade, fugiu de volta para o ninho. Mas o cordão se enroscou nos galhos e ele, sem conseguir voar, disse para si, ao morrer: “Pobre de mim! Por não aceitar a escravidão junto dos homens, privei-me, sem perceber, também da vida”.

A fábula cairia bem para aqueles homens que, no desejo de se defender de perigos banais, caíram, sem se dar conta, em desgraças muito maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 208

Esopo 296

O pavão e o gaio

Estavam as aves deliberando a respeito do poder real, quando um pavão achou que merecia ser aclamado rei por causa de sua formosura. E, como as aves estavam dispostas a votar nele, um gaio disse: “Mas se você for o rei, como vai nos socorrer se uma águia vier atrás de nós?”.

A fábula mostra que os soberanos devem exibir como adorno não a beleza, mas o poder.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 419