Bábrio 2.124

O pássaro e o galo

Um amigo chegou de repente à casa de um passarinheiro,

quando ele se preparava para jantar aipo e segurelha.

Nada havia na gaiola, pois ele não havia ido à caça.

Ele teve o impulso de degolar uma perdiz sarapintada,

domesticada, que mantinha como chamariz de caça, 5

mas ela pediu-lhe que não a matasse, suplicando assim:

“E depois, meu caro, o que farás com a rede,

quando fores à caça? Quem reunirá para ti

um vistoso bando de pássaros gregários?

Ao som de que melodia irás dormir?” 10

Ele então deixou a perdiz e foi decidido

apanhar um galinho de barbicha.

Mas ele, no seu poleiro, soou o cocoricó e disse:

“Como saberás quanto falta para o nascer da aurora,

se matares a mim, teu profeta das horas? Como saberás 15

se Órion do arco de ouro já completou o seu curso?

E de tuas tarefas matinais quem te lembrará,

quando os pássaros têm as asas cobertas de orvalho?”

E o outro disse: “Tu és muito competente em horas,

contudo o meu amigo ali precisa ter o que comer.” 20

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.5

Briga de galos

Era uma briga de galos de Tânagra,

que eram impetuosos, dizem, tal qual os humanos.

Deles, o derrotado (que estava todo machucado)

foi se encolher de vergonha num canto da casa.

E o outro logo saltou para o terraço 5

e, num alvoroço de asas, ficou dando gritos.

E esse uma águia o arrebatou do telhado

e foi-se embora; já o outro se pôs a rodear as galinhas,

de posse de recompensas melhores que a derrota.

     [Homem, também tu não sejas nunca fanfarrão,

mesmo a sorte te elevando mais que a outrem.

Até o não ser exitoso salvou a muitos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 51

O burro, o galo e o leão

Um burro e um galo estavam num estábulo, quando um leão faminto avistou o burro e viu que, se entrasse lá, poderia devorá-lo. Mas, ao ouvir o som do galo cacarejando, retraiu-se de medo – pois dizem que os leões se arrepiam com a voz dos galos –, fez meia-volta e se pôs a fugir. E o burro, todo animado a enfrentá-lo – uma vez que ele sentia medo de um galo! –, saiu do estábulo para ir em seu encalço. E, quando o burro já estava bem longe dali, o leão o devorou.

Assim, também, alguns homens, ao ver que seus inimigos estão sendo humilhados, crescem em ousadia e, sem se dar conta, são destruídos por eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 96

Esopo 76

O cão, o galo e a raposa

Um cão e um galo se tornaram amigos quando seguiam juntos por uma estrada. Ao cair da noite, chegaram a um bosque e, enquanto o galo subiu numa árvore e pousou num galho, o cão adormeceu numa fenda ao pé da árvore. A noite passou e, ao nascer da aurora, o galo se pôs a soltar sua gritaria, como de costume. Então uma raposa o ouviu e, no desejo de abocanhá-lo, se aproximou e ficou parada sob a árvore, gritando para ele: “Você é uma ave boa e de utilidade para os homens. Desça, para cantarmos serenatas e nos alegrarmos juntos”. E ele disse, em resposta: “Amiga, vá aí embaixo, diante da raiz da árvore, e chame o vigia, para ele bater na porta”. E, quando a raposa foi chamá-lo, num átimo o cão saltou sobre ela, agarrou-a e fê-la em pedaços.

A fábula mostra que assim, também, os homens sensatos, quando lhes advém alguma desgraça, com facilidade se posicionam para lutar contra ela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 130

Esopo 140

Os galos e a perdiz

Ao encontrar à venda uma perdiz domesticada, um homem que já tinha galos comprou-a e levou-a para casa, para criá-la junto com eles. Mas os galos davam bicadas e perseguiam a perdiz. Ela se sentia oprimida, achando que era rejeitada por ser de outra espécie. Passado algum tempo, ela notou que os galos se engalfinhavam e não se largavam antes de um deixar o outro coberto de sangue. Então ela disse para si: “Mas eu é que não mais me importo em levar bicadas, pois vejo que eles não respeitam nem a si mesmos”.

A fábula mostra que os prudentes suportam facilmente os excessos dos vizinhos, quando veem que eles não respeitam nem os próprios familiares.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 211

Esopo 141

Os galos e a águia

Dois galos brigavam por causa de galinhas, quando um pôs o outro para correr. Então, o vencido se afastou para um canto sombrio e lá ficou escondido. O vencedor, porém, voou alto e, pousado sobre um muro alto, deu um grito bem forte. Imediatamente desceu uma águia voando e o agarrou. E o galo que se escondera no escuro desde então se pôs a cobrir suas galinhas tranquilamente.

A fábula mostra que o Senhor se opõe aos soberbos e favorece os humildes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 214

Esopo 144

O gato e o galo

Um gato apanhou um galo e decidiu devorá-lo sob um pretexto bem plausível. E começou a fazer-lhe acusações, dizendo que ele era um estorvo para os homens, pois cantava à noite e não os deixava pegar no sono. O galo se defendeu dizendo que agia assim para o bem deles, despertando-os para cuidarem dos afazeres rotineiros. O gato fez uma segunda acusação: “Mas você também tem natureza ímpia, pois se acasala com sua mãe e suas irmãs”. E, como o galo afirmasse que agia assim também em benefício dos patrões, provendo para eles grande quantidade de ovos, o gato, sem jeito, respondeu: “Quer dizer que, se suas defesas forem sempre bem-sucedidas, eu não terei como comer você?”.

A fábula mostra que uma natureza perversa, decidida a cometer uma falta, mesmo que não consiga um pretexto plausível, age com perversidade às claras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 217

Esopo 190

Os ladrões e o galo

Ladrões entraram numa casa e nada encontraram além de um galo. Pegaram-no e foram embora. Quando estava para ser imolado, o galo começou a implorar que o soltassem, dizendo que ele era útil para os homens, pois os despertava à noite para os afazeres. De pronto, os ladrões lhe disseram: “Mas é justamente por isso que vamos sacrificar você, pois, ao despertar os homens, você atrapalha nossa gatunagem!”.

A fábula mostra que o que mais incomoda os perversos é justamente o que beneficia as pessoas de bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 285