A águia, a gata e a javalina
Uma águia tinha feito o ninho na ponta de um cipreste;
uma gata, tendo encontrado um oco no meio do tronco, tinha parido ali;
uma porca habitante do bosque tinha dado cria na parte de baixo.
Então a gata, com fraude e maldade criminosa, destruiu assim
esse casual convívio. 5
Sobe até o ninho da ave e diz: “É preparada uma desgraça
para ti, talvez também para a infeliz de mim.
Pois como vês a javalina traiçoeira cavar a terra todo dia,
ela quer derrubar o carvalho,
para facilmente oprimir a nossa prole no chão.” 10
Espalhado o terror e perturbados os sentidos,
desceu até o quartinho da peluda porca;
“Teus filhos estão em grande perigo”, diz.
“Pois logo que saíres para pastar com sua tenra prole,
a águia está preparada para te arrebatar os porquinhos.” 15
Depois de ter enchido de medo também esse lugar,
a pérfida se escondeu em sua segura cavidade.
Em seguida, saiu à noite na ponta dos pés,
depois que se encheu de alimento a si e à sua prole,
fingindo pavor, fica de guarda o dia todo. 20
A águia, temendo a queda, fica pousada nos ramos;
a javalina, evitando a rapina, não se dirige para fora.
Para que dizer mais? Morreram com os seus de inanição
e ofereceram aos filhotes da gata um amplo banquete.
De quanto de mal um homem pérfido frequentemente causa, 25
a tola credulidade pode aqui ter uma prova.
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.