Fedro 1.9

O pássaro dando conselhos a uma lebre

Que é tolice dar conselho aos outros e não se precaver

mostraremos em poucos versos.

Um pássaro recriminava uma lebre que, apanhada por uma águia,

dava sentidos soluços: “Onde está”, diz,

“aquela tua conhecida rapidez? Por que os teus pés pararam assim?” 5

Enquanto falava, um gavião o arrebata, sem que ele se dê conta,

e, enquanto ele grita em vão lamento, o mata.

E a lebre, já meio morta, diz em consolo de sua morte:

“Tu, que há pouco em segurança rias de minha desgraça,

com queixa similar, lamentas o teu destino.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.31

O gavião e as pombas

Quem confia a própria defesa a um homem ímprobo,

buscando proteção, encontra a ruína.

Como as pombas tivessem muitas vezes fugido do gavião

e evitado a morte graças à rapidez de suas asas,

o rapinador mudou seu plano para a astúcia 5

e enganou a espécie indefesa com o seguinte dolo:

“Por que preferis levar uma vida cheia de preocupação

em vez de, firmada uma aliança, me nomear vosso rei,

para que, seguras, eu vos proteja de toda injúria?”

Elas, confiantes, se entregam ao gavião; 10

este, tendo obtido o reino, começou a comê-las uma a uma

e a exercer a autoridade com suas cruéis garras.

Então uma das que restavam: “Merecidamente somos punidas.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 344

O rouxinol e o gavião

Um rouxinol estava cantando, como de costume, pousado no alto de um carvalho. Nisso, um gavião o avistou e, precisado de alimento, voou sobre ele e o agarrou. E o rouxinol, prestes a morrer, pediu que o soltasse, dizendo que não era suficiente para encher o estômago de um gavião; já que precisava de alimento, ele devia atacar pássaros maiores. O gavião retrucou: “Mas eu seria um doido se largasse o pasto garantido que tenho nas mãos para ir atrás dos que ainda não apareceram”.

Assim, também, dentre os homens, são irracionais aqueles que, na expectativa de bens maiores, deixam escapar os que estão em suas mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 483