Esopo 41

O burro e o hortelão

Um burro, servo de um hortelão, comia pouco e estafava-se demais. Por isso, pediu a Zeus que o livrasse do hortelão e o confiasse a outro dono. Por intermédio de Hermes, Zeus deu ordens para que o vendessem a um oleiro. Mas ele tornou a ficar descontente, pois era forçado a carregar mais peso do que antes. Então suplicou de novo outro dono a Zeus, que, por fim, providenciou que ele fosse vendido a um curtumeiro. Ao ver as atividades do patrão, o burro disse, entre gemidos: “Mesmo carregando peso e passando fome, era melhor ter ficado com os donos anteriores do que estar com este, pois, aqui, se eu morrer, não terei nem sepultura!”.

A fábula mostra que os servos sentem saudade dos donos anteriores, sobretudo quando experimentam outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 83

Esopo 87

O carro de Hermes e os árabes

Hermes, certa vez, percorria a terra inteira, conduzindo um carro lotado de mentiras, trapaças e fraudes, e em cada região ia distribuindo uma pequena porção da carga. Mas, quando chegou à terra dos árabes, dizem que o carro quebrou de repente e que eles furtaram a mercadoria como se fosse uma carga valiosa, impedindo o deus, assim, de seguir viagem para as terras de outros povos.

[A fábula mostra] Que os árabes superam a todas as raças em mentiras e fraudes, pois a verdade não existe na língua deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 142

Esopo 113

O corvo e Hermes

[A fábula mostra] Que os que foram ingratos com os benfeitores, quando caírem em dificuldades, não terão protetores.

Um corvo, preso numa armadilha, suplicou proteção a Apolo, prometendo queimar incenso em sua honra. Mas, quando se viu livre do perigo, esqueceu a promessa. Todavia, ao ser novamente apanhado em outra armadilha, deixou de lado Apolo e prometeu sacrifícios a Hermes. Este, então, lhe disse: “Calhorda! Como vou acreditar em você, que renegou e lesou seu primeiro senhor?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 173

Esopo 142

A gansa dos ovos de ouro

Por receber de um homem reverências em excesso, Hermes o gratificou com uma gansa que botava ovos de ouro. Mas o homem não teve paciência para aguardar o lucro parcelado e, supondo que a gansa fosse por dentro toda de ouro, matou-a sem nenhuma hesitação. Resultou que ele não apenas teve frustradas suas expectativas como também ficou sem os ovos, pois descobriu que as entranhas da gansa eram de carne.

Assim, muitas vezes, os ambiciosos, por desejarem mais bens, deixam escapar até o que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 215

Esopo 156

Hermes e a Terra

Quando Zeus plasmou o homem e a mulher, ordenou a Hermes que os conduzisse à Terra e lhes indicasse onde deveriam cavar para fazer uma toca. Hermes cumpriu a determinação, mas a Terra, no começo, criou resistência. E, como Hermes a intimidasse, dizendo que era determinação de Zeus, ela disse: “Mas eles que escavem quanto quiserem, pois vão me pagar com gemidos e lágrimas”.

Para aqueles que têm facilidade para tomar emprestado mas têm dificuldade para devolver, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 235

Esopo 157

Hermes e o escultor

Pretendendo saber o quanto era honrado entre os homens, Hermes assumiu a forma humana e foi à oficina de um escultor. Ao ver a estátua de Zeus, perguntou: “Quanto custa?”. O escultor respondeu que custava uma dracma. Hermes riu e perguntou: “E a estátua de Hera, quanto é?”. Ele disse que custava muito mais. Então, Hermes viu também sua própria estátua e presumiu que os homens o tivessem em alta conta, por ser ele o deus mensageiro e, também, propiciador de lucros. Por isso, fez mais esta pergunta: “E a de Hermes, quanto custa?”. O estatuário respondeu: “Se você comprar aquelas duas, esta eu lhe darei de brinde”.

Para homem presunçoso que não goza de nenhum prestígio junto dos demais, a fábula cai bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 236

Esopo 158

Hermes e os artesãos

Zeus determinou a Hermes que despejasse o veneno da mentira em todos os artesãos. Ele, então, após triturar o veneno, preparou uma medida igual para cada um e passou a despejá-lo. Mas, como só faltava o sapateiro e havia veneno de sobra, Hermes pegou toda a poção e despejou nele. O resultado disso é que todos os artesãos contam mentiras, mas os sapateiros superam todos eles.

Para homem mentiroso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 237

Esopo 159

Hermes e Tirésias

Desejando testar se a arte divinatória do cego Tirésias era verdadeira, Hermes roubou do campo seus bois, foi até a cidade e, após assumir a forma humana, se instalou como hóspede na casa dele. Ao receber a notícia do desaparecimento de sua parelha, Tirésias chamou Hermes e foi com o deus à periferia, para observar algum presságio a respeito do roubo, e em seguida pediu-lhe que, caso avistasse algum pássaro, lhe contasse qual era. Hermes viu, primeiro, uma águia voando da esquerda para a direita e comunicou o fato a Tirésias, mas este disse que aquilo não tinha nada a ver com eles. Numa segunda vez, Hermes notificou Tirésias de que tinha visto, pousada numa árvore, uma gralha que ora olhava para cima, ora abaixava a cabeça para o chão. Foi então que ele respondeu: “Mas esta gralha está justamente jurando pelo Céu e pela Terra que, se você quiser, eu vou recuperar meus bois!”.

Desta fábula uma pessoa poderia servir-se em relação a um homem ladrão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 238

Esopo 173

O homem mordido por uma formiga e Hermes

Ao avistar certa vez um barco naufragando com passageiros, um homem começou a dizer que os deuses eram injustos, pois, por causa de uma única pessoa ímpia, também inocentes pereciam. E, como estava dizendo isso enquanto se encontrava parado num lugar onde havia muitas formigas, aconteceu que acabou sendo mordido por uma delas. Mas, apesar de ter sido mordido por uma única formiga, pisoteou todas de uma só vez. Então, Hermes se aproximou e, tocando-o com o caduceu, lhe disse: “E depois você não aceita que os deuses exerçam a justiça com o mesmo critério que você usou para as formigas?”.

[A fábula mostra] Que, quando acontece uma desgraça, a pessoa não deve blasfemar contra um deus, mas deve, antes, observar os próprios erros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 255

Esopo 226

O lenhador e Hermes

Um homem estava cortando lenha às margens de um rio, quando deixou cair na água seu machado, que foi levado pela correnteza. Sentado no barranco, ele ficou a chorar, até que Hermes se compadeceu, foi até lá e, ao saber do motivo de seu pranto, desceu no rio e voltou com um machado de ouro. Logo após, o deus lhe perguntou se aquele era seu machado, mas ele disse que não, que não era aquele. Na segunda vez, Hermes trouxe um machado de prata e perguntou se era aquele que o lenhador tinha deixado cair no rio. E, como ele negou que fosse aquele, Hermes lhe trouxe, na terceira vez, o machado dele, que o homem reconheceu que era mesmo o seu. Impressionado com sua honestidade, Hermes lhe deu de presente todos os três machados. O lenhador aceitou os presentes e, mais tarde, quando foi ter com seus companheiros, contou-lhes detalhadamente o sucedido. Então um deles, que estava de olho grande nessa história, decidiu viver a mesma experiência: pegou um machado, foi à beira do mesmo rio e, enquanto cortava lenha, deixou de propósito cair o machado na correnteza. Depois, sentou-se a chorar. E, quando Hermes apareceu e lhe perguntou o que havia ocorrido, ele citou a perda do machado. Mas, assim que Hermes retirou do rio um machado de ouro e lhe perguntou se era aquele que ele havia perdido, o homem, de olho no lucro, mais do que depressa falou que era aquele. O deus, porém, não o recompensou e também não lhe entregou o que lhe pertencia.

A fábula mostra que a divindade ampara os justos tanto quanto hostiliza os injustos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 327-328