Esopo 164

O homem contador de lorotas

Um atleta do pentatlo, que era constantemente tachado de fracote pelos cidadãos, certa vez se ausentou da cidade e, depois de algum tempo, retornou, vangloriando-se das muitas proezas que havia praticado em outros lugares. Contava que em Rodes dera um salto tão alto como nenhum vencedor da Olimpíada tinha conseguido dar, e afirmava que podia apresentar, como testemunhas de tal façanha, as pessoas que a presenciaram, quando elas viessem à cidade. Então um dos presentes retrucou-lhe: “Mas, se isso é mesmo verdade, você não precisa de testemunhas, meu caro. Faça de conta que Rodes é aqui e dê o salto!”.

A fábula mostra que é supérfluo todo discurso a respeito de uma ideia que se pode demonstrar com provas concretas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 244

Esopo 165

O homem covarde e os corvos

Estava um homem covarde saindo para a guerra, quando corvos começaram a crocitar. Ele, então, colocou as armas no chão e permaneceu quieto. Em seguida, pegou as armas e de novo ia partindo, quando eles tornaram a crocitar. O homem parou e, por fim, disse: “Vocês podem ficar gritando o mais alto que puderem, mas minha carne é que não vão saborear!”.

A fábula diz respeito aos covardes em demasia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 245

Esopo 166

O homem covarde que achou um leão de ouro

Um avarento covarde achou um leão de ouro e pôs-se a dizer: “Não sei como agir nesta situação. Estou aturdido e não sei o que fazer. Sinto-me dividido entre o amor ao dinheiro e a covardia inata. Quem teria feito um leão de ouro, algum acaso ou alguma divindade? Minha alma se digladia diante desta situação: ela ama o ouro, mas tem medo do artefato feito com o ouro. O desejo me impele a agarrá-lo e meu caráter, a afastar-me dele. Ó acaso que concede e que impede de aceitar! Ó tesouro que não dá prazer! Ó graça divina que se converte em desgraça! O que fazer? Como servir-me dele? A que expediente devo recorrer? Pois bem, vou embora e voltarei aqui trazendo todos os meus servos e, com a colaboração de tanta gente, vou pegá-lo. Só que eu mesmo ficarei assistindo de longe!”.

A fábula se aplica a uma pessoa rica que não tem coragem de tocar em seus bens e usufruir deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 246

Esopo 167

O homem e a raposa

Um homem tinha raiva de uma raposa porque ela lhe causava danos. Certa vez, ele a dominou e, querendo se vingar de uma vez por todas, pôs fogo num chumaço de estopa umedecido com óleo e amarrou-o na ponta do rabo da raposa. Mas um deus encaminhou-a para a plantação desse homem que a expulsara. Era o tempo propício para a colheita, e ele, por sua vez, foi atrás dela gemendo, porque nada iria colher.

[A fábula mostra] Que é preciso ser indulgente e não se irritar além da medida, pois muitas vezes da cólera nasce o dano para os irascíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 247

Esopo 168

O homem e o leão que seguiam juntos por um caminho

[A fábula mostra] Que muitos homens que em palavras alardeiam coragem e ousadia, a esses a experiência desmascara e denuncia.

Certa vez, um leão caminhava em companhia de um homem. E cada um, por sua vez, ia alardeando suas façanhas. No caminho, porém, havia uma estela de pedra com a representação de um homem esganando um leão. “Está vendo como somos superiores a vocês?”, disse o homem ao leão, apontando-a. E o leão, disfarçando um sorriso, retrucou: “Se leões soubessem esculpir, você veria muitos homens sob as patas de leões”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 248

Esopo 169

O homem e o sátiro

Dizem que, certa vez, um homem firmou um pacto de amizade com um sátiro. Quando chegou o inverno e começou a fazer frio, o homem levava as mãos à boca e as bafejava. O sátiro lhe perguntou por que agia daquele modo e ele respondeu que estava aquecendo as mãos, pois estavam geladas. Mais tarde foi-lhes servida a mesa e, como a refeição estivesse muito quente, o homem tomou uma pequena porção e, levando-a à boca, começou a soprá-la. E, quando o sátiro tornou a perguntar por que agia daquele modo, ele disse que estava esfriando a comida, pois estava quente demais. Então o sátiro lhe disse: “Eu abro mão de sua amizade, meu caro, pois dessa mesma boca você expele tanto o frio como o calor!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar a amizade das pessoas de comportamento ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 249

Esopo 170

O homem grisalho e as duas cortesãs

Um homem grisalho tinha duas amantes, uma nova e outra velha. A idosa, envergonhada de manter relações com um homem mais novo, vivia lhe arrancando os cabelos pretos cada vez que ele a visitava. E a mais nova, tentando suavizar o fato de ter como amante um velho, arrancava os seus fios grisalhos. Assim, aconteceu que, de fio em fio, ele foi depilado pelas duas e ficou careca.

Assim, em qualquer situação o anômalo é prejudicial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 251

Esopo 171

O homem malvado

Um homem malvado apostou com uma pessoa que iria lhe provar que o oráculo de Delfos era falso. No dia marcado, pegou um pardalzinho, encobriu-o com o manto e foi ao santuário. Em pé, diante do oráculo, perguntou-lhe se o que estava segurando nas mãos era uma coisa viva ou sem vida. Sua intenção era, caso ele dissesse “sem vida”, mostrar o pardalzinho vivo, e, caso dissesse “viva”, apresentá-lo morto, depois de asfixiá-lo. E o deus, ciente de sua intenção velhaca, respondeu: “Pare com isso, meu caro! Só depende de você se o que está trazendo é vivo ou morto!”.

A fábula mostra que a divindade é incontestável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 252

Esopo 172

O homem mordido por um cão

Um homem levou uma mordida de um cão e começou a andar de um lado para o outro à procura de alguém que o curasse. Então, uma pessoa lhe disse que ele deveria limpar o sangue com um pedaço de pão e jogá-lo ao cão que o havia mordido. Ele respondeu: “Mas, se eu fizer isso, na certa serei mordido por todos os cães da cidade!”.

Assim, também, a perversidade dos homens, quando estimulada, se assanha mais ainda para praticar danos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 254

Esopo 173

O homem mordido por uma formiga e Hermes

Ao avistar certa vez um barco naufragando com passageiros, um homem começou a dizer que os deuses eram injustos, pois, por causa de uma única pessoa ímpia, também inocentes pereciam. E, como estava dizendo isso enquanto se encontrava parado num lugar onde havia muitas formigas, aconteceu que acabou sendo mordido por uma delas. Mas, apesar de ter sido mordido por uma única formiga, pisoteou todas de uma só vez. Então, Hermes se aproximou e, tocando-o com o caduceu, lhe disse: “E depois você não aceita que os deuses exerçam a justiça com o mesmo critério que você usou para as formigas?”.

[A fábula mostra] Que, quando acontece uma desgraça, a pessoa não deve blasfemar contra um deus, mas deve, antes, observar os próprios erros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 255