Fedro 5.10

O cão, o javali e o caçador

Um cão forte e veloz contra todas as feras,

embora sempre tivesse satisfeito ao seu dono,

com os anos pesando, começou a enfraquecer-se.

Certa vez, lançado à luta com um hirsuto javali,

agarrou-lhe a orelha; mas por causa de seus dentes estragados 5

soltou a presa. Então o caçador, lamentando,

repreendia o cão. Em resposta a ele, o velho lacedemônio:

“Não te abandonou a minha coragem, mas as minhas forças.

Louva o que fomos, se já condenas o que somos”.

Vês bem, Fileto, por que escrevi isto. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.4

O cavalo e o javali

Um javali, remexendo-se na água, sujou o vau

onde o cavalo tinha por costume matar a sede.

Daí surgiu o litígio. O de pés sonantes, irado com a fera,

pediu ajuda ao homem; levando este em suas costas,

voltou na direção do inimigo. Dizem que o cavaleiro, 5

depois que o matou com dardos, falou assim:

“Alegro-me de ter levado auxílio às tuas súplicas;

pois apanhei uma presa e aprendi o quanto és útil”.

E assim obrigou-o a suportar, contra a vontade, os freios.

Então ele, abatido: “Enquanto buscava louco 10

a vingança de uma pequena coisa, encontrei a escravidão”.

Esta fábula advertirá os iracundos de que é melhor

ser impunemente lesado do que se entregar a outrem.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.4

A águia, a gata e a javalina

Uma águia tinha feito o ninho na ponta de um cipreste;

uma gata, tendo encontrado um oco no meio do tronco, tinha parido ali;

uma porca habitante do bosque tinha dado cria na parte de baixo.

Então a gata, com fraude e maldade criminosa, destruiu assim

esse casual convívio. 5

Sobe até o ninho da ave e diz: “É preparada uma desgraça

para ti, talvez também para a infeliz de mim.

Pois como vês a javalina traiçoeira cavar a terra todo dia,

ela quer derrubar o carvalho,

para facilmente oprimir a nossa prole no chão.” 10

Espalhado o terror e perturbados os sentidos,

desceu até o quartinho da peluda porca;

“Teus filhos estão em grande perigo”, diz.

“Pois logo que saíres para pastar com sua tenra prole,

a águia está preparada para te arrebatar os porquinhos.” 15

Depois de ter enchido de medo também esse lugar,

a pérfida se escondeu em sua segura cavidade.

Em seguida, saiu à noite na ponta dos pés,

depois que se encheu de alimento a si e à sua prole,

fingindo pavor, fica de guarda o dia todo. 20

A águia, temendo a queda, fica pousada nos ramos;

a javalina, evitando a rapina, não se dirige para fora.

Para que dizer mais? Morreram com os seus de inanição

e ofereceram aos filhotes da gata um amplo banquete.

De quanto de mal um homem pérfido frequentemente causa, 25

a tola credulidade pode aqui ter uma prova.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.21

O velho leão, o javali, o touro e o burro

Todo aquele que perdeu sua antiga dignidade,

é, em sua grave queda, objeto de galhofa até mesmo para os covardes.

Como um leão, enfraquecido pelos anos e privado de suas forças,

jazesse, exalando seu último suspiro,

um javali veio até ele com seus dentes fulminantes 5

e, com um golpe, se vingou de uma antiga ofensa.

Mais tarde um touro perfurou com seus chifres hostis

o corpo do inimigo. Um burro, quando viu a fera

sendo ferida impunemente, quebrou-lhe a fronte com coices.

E ele, morrendo: “Suportei que os fortes indignamente 10

me insultassem; a ti, desonra da natureza,

visto ser eu obrigado a suportar-te, pareço morrer duas vezes.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.29

O burro rindo do javali

Muitas vezes os tolos, buscando o riso fácil,

satirizam os outros com grave ofensa

e instigam contra si um perigoso risco.

Um burrico, encontrando-se com um javali,

disse: “Salve, irmão.” Aquele, indignando-se, repudia 5

a deferência e pergunta por que gosta de mentir assim.

O burro, mostrando o pinto: “Se dizes que não sou semelhante a ti,

com certeza isto aqui é semelhante ao teu focinho.”

O javali, embora quisesse fazer um nobre ataque,

reprimiu a ira e: “A vingança é fácil para mim, 10

mas não quero me sujar com sangue ignóbil.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 185

O javali e a raposa

Um javali parou junto de uma árvore e começou a aguçar suas presas. Então, uma raposa lhe perguntou por que motivo estava limando as presas, se não havia a iminência de algum caçador ou de outro perigo qualquer. Ele respondeu: “Mas não é à toa que estou fazendo isso! É que, se algum perigo me surpreender, não terei o trabalho de afiá-las e elas já estarão prontas para o uso”.

A fábula ensina que devemos cuidar com antecedência dos preparativos contra os perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 277

Esopo 186

O javali, o cavalo e o caçador

Um javali e um cavalo viviam num mesmo pasto. E, como o javali a todo momento destruía a relva e turvava a água, o cavalo tomou a decisão de vingar-se e recorreu a um caçador. Este lhe respondeu que não podia socorrê-lo, a não ser que ele aceitasse uma rédea e o levasse na garupa. O cavalo sujeitou-se a tudo. E o caçador, montado sobre ele, deu cabo do javali e, depois, conduziu o cavalo à cocheira, onde o prendeu.

Assim, muitas pessoas, movidas por uma cólera irracional, caem elas mesmas submissas a outrem, por desejarem vingar-se dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 278

Esopo 205

O leão e o javali

[A fábula mostra] Que é belo desfazer as querelas nocivas e as rivalidades, visto que elas acabam em danos para todo mundo.

No verão, quando o calor intensifica a sede, numa pequena fonte vieram beber um leão e um javali. Os dois começaram a discutir para ver quem beberia primeiro e, a partir da discussão, se animaram a travar um duelo mortal. De repente, porém, ao recuarem para tomar fôlego, viram abutres só esperando que um deles tombasse, para comê-lo. Por isso, puseram fim às hostilidades, dizendo: “É melhor nos tornarmos amigos do que banquete para abutres e corvos”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 301

Esopo 353

O touro, a leoa e o javali

Um touro encontrou um leão dormindo e matou-o a chifradas. Ao saber disso, a mãe do leão se pôs a pranteá-lo, amargurada. Ao vê-la proferindo os lamentos, um javali, postado à distância, lhe disse: “E o tanto de gente que também está pranteando filhos que vocês, leões, mataram?”.

Esta fábula mostra que uma pessoa será medida com a mesma medida que ela usa para medir os outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 501