Bábrio 1.2

O lavrador que perdeu seu alvião

Um lavrador que cavoucava um vinhedo

perdeu o alvião e se pôs a procurá-lo − 

vai que um dos roceiros dali o tivesse afanado!

Cada um deles negava. Não tendo o que fazer,

levou todos à cidade, para fazê-los prestar juramento; 5

pois imaginam que os deuses habitantes dos campos

são ingênuos e que os que moram cercados de muros

são atilados e em tudo estão de olho.

Quando, então, após adentrarem as portas, numa fonte

depuseram os embornais e começaram a lavar os pés, 10

um arauto anunciava mil dracmas de recompensa 

para uma notícia sobre os despojos subtraídos do deus.

Então, ao ouvir isso, o lavrador falou: “Vim mesmo à toa!

pois como um deus assim saberia de outros ladrões,

se ele não tem noção nem dos gatunos dele próprio, 15

e paga para saber se algum homem os conhece?”

[(A fábula diz) que é preciso desconfiar daqueles que prometem coisas de que não são donos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 192

O lavrador e a águia libertada

Um lavrador encontrou uma águia presa numa armadilha, mas se encantou com sua beleza e deixou-a ir em liberdade. A águia, então, não se mostrou ingrata e, quando o viu sentado ao pé de uma parede trincada, voou em sua direção e, com os pés, arrancou a faixa que ele tinha na cabeça. O lavrador se ergueu, começou a persegui-la e ela, então, deixou cair a fita. Ele a recolheu e, ao voltar para o local onde estivera sentado, encontrou a parede desmoronada. Assim, ele ficou admirado com a retribuição da águia.

[A fábula mostra] Que aqueles que recebem um benefício devem retribuí-lo, pois o bem que se faz terá retorno.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 287

Esopo 193

O lavrador e a cobra

Enquanto rastejava, uma cobra matou o filho de um lavrador. Profundamente angustiado com isso, o lavrador pegou um machado, foi para junto da toca da cobra e ficou vigiando a fim de golpeá-la, tão logo ela viesse para fora. Assim que a cobra apontou, ele deu uma machadada, que não acertou a cobra, mas fendeu um bloco de pedra que havia lá. E, depois, ele propôs, por via das dúvidas, que ambos fizessem as pazes. Então ela disse: “Mas nem eu consigo estar de bem com você quando vejo a pedra fendida, nem você comigo quando olha para o túmulo de seu filho”.

A fábula mostra que as grandes inimizades não têm fácil reconciliação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 288

Esopo 194

O lavrador e o Acaso

Um lavrador encontrou ouro na terra que cultivava e começou a oferecer coroas à Terra diariamente, como se ela é que fosse sua benfeitora. Veio, então, o Acaso e lhe disse: “Meu caro, por que você atribui à Terra as minhas dádivas, justo essas que eu lhe concedi por desejar que você ficasse rico? Se os tempos mudarem e esse ouro for gasto em outras necessidades, você não irá recriminar a Terra, e sim o Acaso!”.

A fábula nos ensina que precisamos reconhecer o benfeitor e demonstrar-lhe gratidão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 289

Esopo 195

O lavrador e o arbusto

[A fábula mostra] Que, por natureza, os homens não amam e honram tanto a justiça, como se animam a perseguir o lucro.

Nas terras de um lavrador havia um arbusto que não produzia frutos e só servia de abrigo a pardais e cigarras estridentes. Como não dava frutos, o lavrador ia cortá-lo. E, assim que pegou o machado e desferiu o golpe, as cigarras e os pardais puseram-se a suplicar-lhe que não abatesse o refúgio deles, mas que o deixasse, para que nele cantassem, proporcionando alegrias a você, lavrador! Mas este, sem a menor preocupação, desferiu um segundo golpe, e ainda um terceiro. Ao esburacar o arbusto, encontrou um enxame de abelhas e mel. E, depois de saboreá-lo, jogou fora o machado e honrou a planta como coisa sagrada, passando a cuidar dela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 290

Esopo 196

O lavrador e o lobo

Um lavrador desatrelou sua junta de bois e levou-a para beber água. Nisso, um lobo faminto, que estava à procura de comida, topou com o arado, começou a lamber o jugo dos bois e, aos poucos, sem se dar conta, acabou enfiando o pescoço nele. Em seguida tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e foi arrastando o arado pela plantação. E o lavrador, quando retornou, disse, ao vê-lo: “Ó, cabeça malvada, quem dera você abandonasse as pilhagens e os danos e pendesse para a lavoura!”.

Assim, os homens perversos, ainda que alardeiem ações utilíssimas, não merecem crédito devido a seu caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 291

Esopo 197

O lavrador e os cães

Um lavrador ficou detido no estábulo por causa de uma tempestade e, sem poder sair para arranjar alimento, comeu primeiro os cordeiros. E, como a tempestade ainda persistisse, num segundo momento devorou também as cabras. E, como não ocorresse nenhuma estiada, numa terceira vez avançou sobre os bois de arado também. Então os cães, que observavam os acontecimentos, disseram entre si: “Precisamos dar o fora daqui, pois se o patrão não se absteve nem mesmo dos bois, seus colaboradores, como é que vai nos poupar?”.

A fábula ensina que é preciso ter muita cautela com as pessoas que tratam injustamente seus conhecidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 292

Esopo 198

O lavrador e seus filhos

Um lavrador à beira da morte desejava que seus filhos adquirissem experiência na lavoura. Chamou-os, então, para junto de si e disse: “Meus filhos, numa de minhas vinhas há um tesouro”. Logo depois que o pai faleceu, eles pegaram os forcados e as charruas e revolveram toda a plantação. Tesouro, na verdade, não encontraram, mas a vinha lhes deu em recompensa múltiplas cargas de frutos.

A fábula mostra que o trabalho é um tesouro para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 293

Esopo 199

O lavrador e seus filhos que viviam em discórdia

Um lavrador tinha filhos que viviam em discórdia e, apesar de seus muitos conselhos, não conseguia persuadi-los só com palavras a mudar de comportamento. Então concluiu que era preciso fazê-lo por meio de uma ação. Assim, propôs que eles trouxessem um fardo de lenha. Realizada essa tarefa, o lavrador lhes deu, primeiro, o fardo amarrado e ordenou que o quebrassem, mas eles não conseguiram quebrá-lo, apesar de todo o esforço que fizeram. Em seguida, ele desamarrou o fardo e foi lhes entregando um galho por vez, que eles iam quebrando sem dificuldade. E disse-lhes, depois: “Pois é. Assim, também vocês, meus filhos, se permanecerem amigos, serão invencíveis para os inimigos. Mas, se viverem em discórdia, serão presas fáceis”.

A fábula mostra que mais forte quanto a concórdia é tão facílima de vencer é a discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 294

Esopo 210

O leão enamorado

Um leão enamorou-se da filha de um lavrador e foi pedi-la em casamento. E o lavrador, que não suportava a ideia de entregar a filha a uma fera e, por medo, também não conseguia dizer não, fez o seguinte. Visto que o leão insistia em pressioná-lo, ele disse que o reputava um noivo digno de sua filha, mas não podia conceder-lhe sua mão, a menos que ele extraísse as presas e aparasse as garras, que amedrontavam a mocinha. O leão, por amor, sujeitou-se com facilidade a todas as exigências e o lavrador, já sem nenhum receio dele, escorraçou-o a porretadas quando ele veio à sua casa.

A fábula mostra que aqueles que se fiam mais nem menos no próximo sem aceitam abrir mão de seus privilégios específicos e, depois, se tornam presas fáceis daqueles que anteriormente os temiam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 306