Bábrio 2.139

O asno em pele de leão

Um asno estendeu sobre as ancas uma pele de leão

e presumiu que era temível para todos os homens.

Dava saltos e coices, causando a fuga dos homens

e também a fuga dos rebanhos todos.

Mas, com o sopro do vento, a pele de seu lombo 5

se despregou e ele se fez notar como asno.

E uma pessoa lhe disse, surrando-o com o porrete:

“Nasceste asno, não imites leão.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 4.14

Sobre o leão reinando

Como o leão se tivesse feito o rei das feras

e quisesse alcançar a fama da equidade,

afastou-se de seu antigo costume

e, contente com pouca comida, administrava entre elas

os sagrados direitos com incorrupta lealdade. 5

Depois que o arrependimento começou a vacilar (…)

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.1

O arqueiro e o leão

Um homem foi caçar na montanha,

destro no disparo da flecha; aí se deu a fuga

dos animais todos e a correria cheia de medo.

Só o leão foi ousado e chamou-o para briga.

 “Espera, não tenhas pressa”, disse-lhe 5

o homem, “nem ponhas esperança na vitória;

na primeira topada com meu mensageiro, saberás

o que podes fazer”. A seguir ele dispara a flecha,

um pouco distanciado. E o dardo se ocultou

nos intestinos flácidos do leão. E o leão apavorado 10

ameaçou fugir para a solidão dos vales frondosos.

Dele, porém, uma raposa não longe estava postada.

Ela sugerindo-lhe ter coragem e ficar firme, ele diz:

“Não me desviarás nem me farás ciladas,

pois se ele me envia um mensageiro tão penetrante, 15

já estou sabendo o quão temível ele é pessoalmente”.

      [(A fábula diz) que é preciso, conhecer a tendência de cada pessoa a partir das propostas que ela faz. Também diz que a sabedoria difere da força física.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.23

O vaqueiro e o leão

Um vaqueiro estava em uma grande floresta

à procura de um touro cornudo que ele perdera.

Fez então fez promessa às ninfas das montanhas

e a Hermes do pastoreio e a Pã, deuses das cercanias:

ofertaria libação de um carneiro, se pegasse o ladrão. 5

Ao transpor o topo de um monte, vê o belo touro

feito banquete de um leão. Aí o desditoso roga e jura

oferecer também um boi, se puder livrar-se do ladrão.

     [Segue-se daí que nós, ao que parece, aprendemos isto:

não dirigir aos deuses uma promessa impensada,

    motivada por uma aflição momentânea.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.67

O leão e o onagro

Um onagro e um leão formaram uma sociedade de caça;

em força o leão era superior, mas o asno era melhor nas patas.

Quando conseguiram uma boa quantia de animais,

o leão faz a partilha, determina três porções

e diz: “Esta eu próprio pegarei em primeiro lugar, 5

pois sou rei; e pegarei também aquela

como sócio com direitos iguais. E a terceira, essa

irá causar-te um certo mal, se não quiseres fugir.”

     Mede a ti próprio. Nenhum negócio com homem

mais poderoso combines nem faças sociedade com ele. 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.92

O caçador e o leão

De um leão um caçador nem um pouco destemido

seguia as pegadas em densas florestas das montanhas.

Ao deparar com um lenhador junto de um alto pinheiro

disse: “Imploro-te, pelas ninfas, acaso tens notado

as pegadas de um leão que se entoca por aqui?” 5

E ele falou: “Mas há um deus em teu caminho!

Pois eu já vou te mostrar o próprio leão!”

Mas o outro, empalidecido, batendo os dentes

fala: “Não me favoreças além do que eu preciso,

diz só a pegada; não me mostres o leão.” 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.103

O leão velho e a raposa

Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça

(pois há muito tempo já adentrara a velhice),

no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa

debilitada por doença, simulando respiração ofegante

e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5

Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;

todos se condoeram da enfermidade do leão

e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.

A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,

e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10

Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância

detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”

E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!

Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!

Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15

consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”

“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.

Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais

e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”

     Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20

mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.107

O leão e o rato

Um leão caçou um rato e estava prestes a jantá-lo,

quando o desditoso ladrão devasta-casa, à beira da morte,

tais palavras pôs-se a murmurar suplicante:

“Cervos e touros chifrudos é o que convém a ti

caçar, e encher a pança com essa carne; 5

um rato como refeição nem para tocar a ponta

de teus lábios será suficiente. Mas imploro-te, poupa-me.

Apesar de pequenino, honrar-te-ei com um favor igual.”

A rir a fera deixou que o suplicante continuasse vivo.

E tendo caído nas mãos de jovens amantes da caça 10

foi apanhado na rede e, abatido, acabou amarrado.

Então o rato pulou sorrateiro de um buraco,

com os minúsculos dentes serrou o nó resistente e

soltou o leão. Beneficiado com o direito de contemplar a luz

o rato, ao salvar-lhe a vida, lhe deu justa recompensa. 15

     A fábula é clara para os homens que raciocinam bem:

salvar os pobres, e não perder as esperanças neles,

se até um leão apanhado em armadilha um rato salvou.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 2.1

O novilho, o leão e o ladrão

Um leão estava de pé sobre um novilho abatido.

Um ladrão intervém, reclamando uma parte.

“Eu te daria” diz “se não tivesses o costume de pegar por ti mesmo”;

e rechaçou o malandro. Casualmente, um inofensivo

viajante chegou ao mesmo local 5

e, ao ver o feroz animal, retrocedeu.

E aquele lhe diz pacificamente: “Não há por que temer;

e pega sem medo a parte que lhe é devida

por tua modéstia.” Então, repartida a presa,

dirigiu-se à floresta, para deixar o caminho livre ao homem. 10

Um exemplo perfeitamente egrégio e louvável;

porém a ambição é rica e o recato, pobre.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.5

A vaca e a cabrita, a ovelha e o leão

Nunca é de confiança a sociedade com um poderoso.

Esta fábula atesta a minha afirmação.

A vaca e a cabrita e a ovelha, sofredora de injustiça,

foram sócias do leão nos bosques.

Como eles tinham caçado um cervo de grande tamanho, 5

o leão, feitas as partes, assim falou:

“Eu levo a primeira, visto que me chamo leão;

a segunda dareis a mim, porque sou sócio;

em seguida, porque sou mais forte, virá para mim a terceira;

e se alguém tocar a quarta, cairá em desgraça”. 10

Assim, a maldade sozinha levou a presa toda.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.