Fedro 1.11

O burro e o leão caçando

O desprovido de valor, quando alardeia com palavras sua glória,

engana os desconhecidos; para os conhecidos, é motivo de zombaria.

Um leão, querendo caçar em companhia de um burro,

camuflou-o entre os ramos e ao mesmo tempo exortou-o

a aterrorizar as feras com sua voz insólita, 5

e ele as pegaria ao tentarem fugir. Então o orelhudo

ergue subitamente um urro com todas as suas forças

e abala os bichos com o inédito portento.

Esses, buscando aterrorizados as saídas conhecidas,

são abatidos pelo terrível ataque do leão. 10

Depois que este se cansou da matança, chama o burro

e manda-lhe conter a voz. Então ele, insolente:

“Que tal te parece o efeito de minha voz?”

“Notável”, diz, “de tal modo que, se eu não conhecesse

o teu ânimo e a tua raça, eu teria fugido com igual medo.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.21

O velho leão, o javali, o touro e o burro

Todo aquele que perdeu sua antiga dignidade,

é, em sua grave queda, objeto de galhofa até mesmo para os covardes.

Como um leão, enfraquecido pelos anos e privado de suas forças,

jazesse, exalando seu último suspiro,

um javali veio até ele com seus dentes fulminantes 5

e, com um golpe, se vingou de uma antiga ofensa.

Mais tarde um touro perfurou com seus chifres hostis

o corpo do inimigo. Um burro, quando viu a fera

sendo ferida impunemente, quebrou-lhe a fronte com coices.

E ele, morrendo: “Suportei que os fortes indignamente 10

me insultassem; a ti, desonra da natureza,

visto ser eu obrigado a suportar-te, pareço morrer duas vezes.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 17

O arqueiro e o leão

Quando um arqueiro experiente foi caçar no alto de uma montanha, todos os animais puseram-se em fuga, mas um leão o desafiou para uma luta. E o arqueiro, após disparar a flecha e acertar o leão, disse: “Primeiro, veja como é meu mensageiro e, depois, também eu vou atacar você”. O leão, ferido, estava prestes a fugir em disparada, quando uma raposa lhe sugeriu que tivesse calma e não fugisse, mas ele retrucou: “De jeito nenhum você vai mudar meu rumo. Se ele tem um mensageiro penetrante assim, o que farei se ele vier em pessoa me atacar?”.

[A fábula mostra] Que devemos prever o final a partir do começo e só então proteger-nos do resto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 54

Esopo 31

Os bois e o leão

Três bois viviam a pastar sempre juntos. Mas um leão que desejava comê-los e não conseguia, porque eles viviam em concórdia, indispôs um contra o outro por meio de falsos discursos e separou-os. E, assim, como os encontrou isolados, devorou um por um.

Se você deseja muito viver livre de dos inimigos; nos perigos, desconfie amigos, porém, tenha confiança, e preserve-os.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 72

Esopo 42

O burro em pele de leão

[A fábula mostra] Que você, que é pobre e gente comum, não deve imitar o comportamento dos ricos, para não ser alvo de caçoadas nem correr riscos.

Envolto numa pele de leão, um burro fazia todo mundo pensar que ele era um leão e, assim, punha em fuga homens e rebanhos. Mas, logo que soprou uma rajada de vento, a pele se despegou e o burro ficou nu. Aí, então, todos acorreram e o surraram com varas e porretes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 84

Esopo 43

O burro que vestiu uma pele de leão

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”.

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 85

Esopo 49

O burro, a raposa e o leão

Um burro e uma raposa se tornaram sócios e saíram para caçar. Mas, quando toparam com um leão, a raposa, ao ver o perigo iminente, se aproximou dele e propôs entregar-lhe o burro caso ele prometesse poupá-la. Como o leão disse que iria libertá-la, a raposa induziu o burro a cair numa armadilha preparada por ela. E o leão, ao ver que o burro não podia escapar, agarrou primeiro a raposa e, em seguida, foi para cima do burro.

Assim, os que conspiram contra os sócios sem perceber também perecem muitas vezes junto com eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 93

Esopo 51

O burro, o galo e o leão

Um burro e um galo estavam num estábulo, quando um leão faminto avistou o burro e viu que, se entrasse lá, poderia devorá-lo. Mas, ao ouvir o som do galo cacarejando, retraiu-se de medo – pois dizem que os leões se arrepiam com a voz dos galos –, fez meia-volta e se pôs a fugir. E o burro, todo animado a enfrentá-lo – uma vez que ele sentia medo de um galo! –, saiu do estábulo para ir em seu encalço. E, quando o burro já estava bem longe dali, o leão o devorou.

Assim, também, alguns homens, ao ver que seus inimigos estão sendo humilhados, crescem em ousadia e, sem se dar conta, são destruídos por eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 96

Esopo 66

Os cães que estraçalhavam uma pele de leão

Uns cães encontraram uma pele de leão e puseram-se a fazê-la em pedaços. Ao vê-los, a raposa disse: “Se esse leão estivesse vivo, veriam que suas garras eram mais fortes do que os dentes de vocês”.

Essa fábula é clara para os que menosprezam as pessoas ilustres, quando elas despencam do poder e da glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 120

Esopo 74

O cão que perseguia um leão

Um cão de caça viu um leão e se pôs a persegui-lo, mas o leão se voltou e deu um rugido. Amedrontado, o cão retrocedeu. Então uma raposa o viu e disse: “Ô, cabeça oca, você estava perseguindo um leão e não podia nem com o rugido dele?”.

A fábula poderia ser contada a propósito de homens arrogantes que se põem a denegrir os mais poderosos, mas, quando eles os enfrentam, imediatamente retrocedem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 128