Esopo 106

A corça à beira do riacho

Premida pela sede, uma corça foi a uma fonte. Depois que bebeu, fitou sua própria sombra na superfície da água e, vendo que seus cornos eram de bom tamanho e de feitio variado, envaideceu-se deles, mas chateou-se muito com suas pernas, por serem finas e frágeis. E ainda estava pensando nisso, quando, de repente, surgiu um leão, que começou a persegui-la. Ela tratou de fugir em disparada e, enquanto a planície era um descampado, foi tomando a dianteira. Mas quando parou num matagal aconteceu o seguinte: seus cornos se enroscaram nos galhos e ela, sem poder correr, foi agarrada pelo leão. Prestes a morrer, disse para si: “Pobre de mim! Aquelas que eu pensava que fossem me trair me salvaram, enquanto esses em quem eu tinha plena confiança puseram-me a perder!”.

Assim, é frequente que, nos perigos, os amigos suspeitos se tornem salvadores e os que mereciam plena confiança, traidores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 163

Esopo 108

A corça e o leão na caverna

Enquanto fugia de caçadores, uma corça foi parar numa caverna onde estava um leão, e lá entrou para esconder-se. Tendo sido agarrada por ele, disse, prestes a perecer: “Que azarada sou eu, que, para fugir de homens, coloquei-me nas mãos de uma fera”.

Assim, alguns homens, por medo de perigos menores, lançam-se em males maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 167

Esopo 166

O homem covarde que achou um leão de ouro

Um avarento covarde achou um leão de ouro e pôs-se a dizer: “Não sei como agir nesta situação. Estou aturdido e não sei o que fazer. Sinto-me dividido entre o amor ao dinheiro e a covardia inata. Quem teria feito um leão de ouro, algum acaso ou alguma divindade? Minha alma se digladia diante desta situação: ela ama o ouro, mas tem medo do artefato feito com o ouro. O desejo me impele a agarrá-lo e meu caráter, a afastar-me dele. Ó acaso que concede e que impede de aceitar! Ó tesouro que não dá prazer! Ó graça divina que se converte em desgraça! O que fazer? Como servir-me dele? A que expediente devo recorrer? Pois bem, vou embora e voltarei aqui trazendo todos os meus servos e, com a colaboração de tanta gente, vou pegá-lo. Só que eu mesmo ficarei assistindo de longe!”.

A fábula se aplica a uma pessoa rica que não tem coragem de tocar em seus bens e usufruir deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 246

Esopo 168

O homem e o leão que seguiam juntos por um caminho

[A fábula mostra] Que muitos homens que em palavras alardeiam coragem e ousadia, a esses a experiência desmascara e denuncia.

Certa vez, um leão caminhava em companhia de um homem. E cada um, por sua vez, ia alardeando suas façanhas. No caminho, porém, havia uma estela de pedra com a representação de um homem esganando um leão. “Está vendo como somos superiores a vocês?”, disse o homem ao leão, apontando-a. E o leão, disfarçando um sorriso, retrucou: “Se leões soubessem esculpir, você veria muitos homens sob as patas de leões”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 248

Esopo 200

O leão doente, o lobo e a raposa

Um velho leão jazia doente estirado numa gruta. Todos os animais fizeram uma visita ao rei, menos a raposa. Foi então que o lobo aproveitou a chance de denunciá-la ao leão, dizendo que ela não tinha a menor consideração por aquele que exercia a autoridade sobre todos os animais e, por isso, não vinha visitá-lo. Mas, justo nesse momento, foi chegando a raposa, que ouviu as palavras finais do lobo. O leão, por conseguinte, começou a rugir para ela. A raposa, no entanto, pediu uma oportunidade de defesa e disse: “E, dentre esses que se reuniram aqui, quem foi que se preocupou com você tanto quanto eu, que andei por toda parte procurando saber dos médicos um tratamento para você e acabei encontrando?”. E, como o leão a mandasse dizer sem demora qual era o tratamento, ela falou: “É só esfolar um lobo vivo e envolver-se com a pele dele ainda quente”. E o lobo, imediatamente, jazeu morto. Então a raposa disse, a rir: “Assim, não se deve instigar o chefe à hostilidade, mas à benevolência!”.

A fábula mostra que aquele que maquina contra os outros reverte para si próprio a maquinação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 295

Esopo 201

O leão e a lebre

Um leão deparou com uma lebre a dormir, e estava prestes a devorá-la quando avistou uma corça passando por ali. Pôs-se, então, a persegui-la, deixando de lado a lebre, que despertou com o tropel e fugiu. E o leão, depois de muito correr atrás da corça, sem no entanto conseguir apanhá-la, voltou para atacar a lebre. Mas, ao ver que ela havia fugido, disse: “Mas é bem-feito para mim, pois abandonei o repasto que tinha em mãos para dar prioridade à expectativa de um melhor”.

Assim, alguns homens, não ganhos modestos, satisfeitos com vão atrás de expectativas melhores e, sem notar, desperdiçam os que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 296

Esopo 202

O leão e a rã

Ao ouvir o coaxar de uma rã, um leão se voltou para aquele barulho, crente de que se tratava de um animal de grande porte. Então, aguardou algum tempo e, quando a viu saindo do brejo, chegou perto e esmagou-a, dizendo: “Que o ouvir não abale ninguém antes do ver”.

Para homem de eloquência doentia, que só consegue tagarelar, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 297

Esopo 203

O leão e o burro que foram juntos à caça

Um leão e um burro se tornaram sócios e foram caçar. Ao chegarem a uma gruta onde havia cabras selvagens, o leão estacou na entrada para vigiar as que iam sair, enquanto o burro entrou e, lançando-se entre elas, começou a zurrar, pretendendo espantá-las para fora. E, depois que o leão havia apanhado quase todas, o burro saiu e quis saber do leão se ele havia lutado bravamente e afugentado direito as cabras. Então o leão respondeu: “Mas tenha certeza de que até eu teria ficado com medo, se não soubesse que você é um burro!”.

Assim, os que se vangloriam diante de quem os conhece expõem-se ao riso inevitavelmente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 298

Esopo 204

O leão e o golfinho

Enquanto zanzava por uma praia, um leão viu assomar fora da água a cabeça de um golfinho e, então, convidou-o para uma aliança de guerra, dizendo que era uma combinação perfeita eles serem amigos e aliados, pois, enquanto um era o rei dos animais marinhos, ele próprio reinava sobre os animais terrestres. De bom grado, o golfinho concordou. E o leão, que havia muito tempo estava em guerra contra um touro selvagem, chamou o golfinho em seu socorro. E como ele, mesmo querendo, não conseguia sair do mar, o leão o acusou de traidor. O golfinho, então, respondeu: “Não faça censuras a mim, mas à natureza, pois foi ela que, ao me fazer marinho, não me deixa andar em terra firme”.

Pois é. Portanto, também nós, que selamos pactos de amizade, devemos escolher como aliados aqueles que possam, nos perigos, estar junto de nós.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 299

Esopo 205

O leão e o javali

[A fábula mostra] Que é belo desfazer as querelas nocivas e as rivalidades, visto que elas acabam em danos para todo mundo.

No verão, quando o calor intensifica a sede, numa pequena fonte vieram beber um leão e um javali. Os dois começaram a discutir para ver quem beberia primeiro e, a partir da discussão, se animaram a travar um duelo mortal. De repente, porém, ao recuarem para tomar fôlego, viram abutres só esperando que um deles tombasse, para comê-lo. Por isso, puseram fim às hostilidades, dizendo: “É melhor nos tornarmos amigos do que banquete para abutres e corvos”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 301