Esopo 206

O leão e o onagro

Um leão e um onagro estavam caçando bichos, o leão recorrendo à sua força e o onagro, à rapidez de suas patas. Assim que caçaram alguns, o leão se pôs a fazer a partilha e separou três partes, dizendo: “A primeira eu vou pegar porque tenho prioridade, afinal, sou o rei. A segunda eu vou pegar porque sou seu sócio, com direitos iguais. E essa, a terceira, vai lhe causar um grande mal se você não quiser fugir”.

[A fábula mostra] que o bom é medir-se em tudo segundo a própria força, e não se juntar nem fazer sociedade com os mais poderosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 302

Esopo 207

O leão e o rato agradecido

Enquanto um leão dormia, um rato passeava pelo seu corpo. Nisso, ele despertou e o agarrou, e já ia devorá-lo, quando o rato começou a pedir que o soltasse, dizendo que, se o deixasse são e salvo, iria retribuir-lhe esse favor. O leão desandou a rir e soltou-o. Aconteceu, porém, que não demorou muito para ele ser salvo pela gratidão do rato. Tendo sido apanhado por caçadores, o leão foi amarrado com uma corda a uma árvore. Nesse instante o rato ouviu os gemidos dele, foi até lá e roeu a corda. E disse, após libertá-lo: “Certa vez você caçoou de mim porque não contava receber de minha parte uma recompensa. Agora, porém, esteja certo de que também entre os ratos há gratidão!”.

A fábula mostra que as situações mudam e os muito poderosos passam a precisar dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 303

Esopo 208

O leão e o touro

Um leão que tramava contra um touro enorme quis dominá-lo por meio de um ardil. Então, contou-lhe que havia imolado um cordeiro e convidou-o para a refeição, pretendendo dar cabo dele quando estivesse refestelado à mesa. O touro veio e, quando viu vários caldeirões e grandes espetos, mas nada de cordeiro, foi saindo calado. Foi então que o leão se pôs a repreendê-lo e a perguntar-lhe por que motivo ele, que não tinha sido maltratado, estava saindo em silêncio. E o touro respondeu: “Mas não é sem razão que estou fazendo isso! É que estou vendo utensílios preparados não para um cordeiro, mas para um touro”.

A fábula mostra que aos homens prudentes não passam despercebidos os artifícios dos malvados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 304

Esopo 209

O leão e o urso

Um leão e um urso encontraram um filhote de veado e puseram-se a brigar por causa dele. E se agrediram com tal violência que logo sentiram vertigens e caíram prostrados. Então uma raposa que estava chegando ali, ao vê-los inertes, agarrou o filhote, que jazia entre eles, e saiu por entre os dois. E eles, sem condições de levantar, disseram: “Como somos miseráveis! Estávamos nos matando em proveito de uma raposa!”.

A fábula mostra que sofrem com razão as pessoas que veem os frutos obtidos de seus próprios esforços serem levados pelo primeiro que aparece.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 305

Esopo 210

O leão enamorado

Um leão enamorou-se da filha de um lavrador e foi pedi-la em casamento. E o lavrador, que não suportava a ideia de entregar a filha a uma fera e, por medo, também não conseguia dizer não, fez o seguinte. Visto que o leão insistia em pressioná-lo, ele disse que o reputava um noivo digno de sua filha, mas não podia conceder-lhe sua mão, a menos que ele extraísse as presas e aparasse as garras, que amedrontavam a mocinha. O leão, por amor, sujeitou-se com facilidade a todas as exigências e o lavrador, já sem nenhum receio dele, escorraçou-o a porretadas quando ele veio à sua casa.

A fábula mostra que aqueles que se fiam mais nem menos no próximo sem aceitam abrir mão de seus privilégios específicos e, depois, se tornam presas fáceis daqueles que anteriormente os temiam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 306

Esopo 211

O leão furioso e o veado

Ao avistar, da floresta, um leão em acesso de fúria, um veado disse: “Aiaiai! Pobres de nós! O que não fará esse aí, enfurecido assim, se já era insuportável quando estava em pleno juízo?!”.

[A fábula aconselha] Que todos se mantenham afastados dos homens de ânimo alterado e acostumados a fazer o mal, quando eles ocupam o poder e se tornam chefes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 307

Esopo 212

O leão, o burro e a raposa

Um leão, um burro e uma raposa fizeram entre si uma sociedade e foram caçar. Assim que apanharam uma boa quantia de presas, o leão determinou que o burro lhes fizesse a partilha. Então ele fez três partes iguais e convidou-o para escolher uma. Enfurecido, o leão saltou sobre ele, devorou-o e, depois, determinou que a raposa fizesse a divisão. Ela ajuntou tudo num único monte, reservando para si uma pequena porção, e convidou o leão a fazer a escolha. E, quando o leão lhe perguntou quem é que a ensinara a repartir daquele modo, a raposa respondeu: “A desgraça do burro!”.

A fábula mostra que os infortúnios do próximo se tornam, para os homens, fonte de sabedoria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 308

Esopo 213

O leão, a raposa e a corça

Um leão, que jazia doente em uma caverna, disse à estimada raposa, com quem mantinha convívio: “Se você me quer vivo e saudável, ludibrie com palavras a maior corça que vive na floresta, faça com que ela venha às minhas mãos, pois ela tem um coração e entranhas que despertam o meu apetite”. A raposa se foi e, ao encontrar a corça a saltitar na floresta, saudou-a efusivamente e, em seguida, lhe disse: “Vim trazer boas novas! Você sabe que o leão, nosso rei, é meu vizinho. Ele está doente, moribundo, e se pôs a considerar sobre qual dos animais iria sucedê-lo. O javali é sem juízo”, afirmava ele, “o urso, balofo, a pantera, ranzinza, o tigre, fanfarrão. A corça é a mais digna da realeza, porque tem porte altivo, vida longa e um chifre que intimida as serpentes. Bom, mais delongas para quê? Por decisão dele, você assumirá o reinado! E eu, que recompensa vou ganhar por ter-lhe dado essa notícia em primeira mão? Vamos, prometa-me alguma coisa. Estou com pressa, não vá ele sentir a minha falta! Ele me tem como conselheira para tudo. Se você quer ouvir a mim, que sou velha, o meu conselho é que você venha também e aguarde junto do moribundo”. Assim disse a raposa. Com essas palavras, a corça ficou toda cheia de si e foi à caverna, ignorando o que ia acontecer. O leão, então, lançou impetuoso suas garras sobre ela, dilacerando-lhe somente as orelhas, pois a corça tratou de fugir rapidamente para a floresta. Enquanto a raposa dava murros porque havia feito esforços em vão, o leão gemia, entre fortes rugidos, pois a fome e o desgosto o dominavam. Então ele suplicou à raposa que fizesse uma segunda tentativa para trazer a corça novamente, por meio de um ardil. “A tarefa que você me atribui é difícil e penosa. Contudo, vou lhe dar esse apoio”, disse a raposa. Assim, como um cão farejador, saiu à procura da corça e foi tramando trapaças rumo à floresta, seguindo a indicação de uns pastores, a quem ela perguntou se tinham visto uma corça sangrando. A raposa a encontrou esbaforida e parou diante dela com a maior cara de pau. Indignada, a corça arrepiou o pelo e disse: “Nunca mais você me pega, sua peste! E se chegar perto de mim, não sairá viva! Vá raposinhar com outros, inexperientes, estimulando-os a se tornarem reis!”. A raposa rebateu: “Você é tão frágil e covarde assim, que desconfia de nós, seus amigos? O leão, quando agarrou sua orelha, ia dar conselhos e recomendações a respeito desse cargo tão importante, porque ele está morrendo! E você não tolerou nem mesmo um arranhão da pata de um enfermo! Agora a indignação dele é muito maior que a sua, e ele pretende tornar rei o lobo. Ai de mim, um senhor malvado! Mas venha, não se deixe sugestionar por nada, comporte-se como um cordeiro. Juro por todas as folhas e fontes que não sofrerá nenhum mal da parte do leão. Quanto a mim, quero apenas o seu bem”. Com tais ludíbrios, a raposa convenceu a medrosa a acompanhá-la uma segunda vez. E quando a corça adentrou a caverna, o leão agarrou a sua janta e se pôs a comer os ossos todos, o tutano e as entranhas. A raposa ficou parada, observando. Nisso cai o coração da corça e a raposa sorrateiramente o apanha e devora, como prêmio de seu empenho. E quando percebeu que o leão farejava todas as partes mas não achava o coração, ela, postada à distância, lhe disse: “A bem da verdade, essa fulana aí não tinha coração. Nem adianta procurar! Que espécie de coração teria ela, que veio ter por duas vezes à morada e às mãos de um leão?”.

[A fábula mostra] Que o amor pelas honrarias turva a mente humana e subestima as consequências dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 309-311

Esopo 214

O leão, Prometeu e o elefante

Um leão vivia se queixando com Prometeu porque este o havia feito grande e belo, havia munido sua mandíbula de dentes e fortalecido suas patas com garras; fizera-o, enfim, mais poderoso que os outros animais. “Mas eu, com tais regalias”, dizia ele, “tenho medo do galo!” E Prometeu respondeu: “Você não tem motivo para me culpar, pois recebeu de mim tudo o que eu pude fazer. E é só diante desse animal que seu ânimo esmorece!”. Mas o leão se deplorava, recriminando a própria covardia e, por fim, quis morrer. Estava com essas ideias na cabeça, quando encontrou por acaso um elefante. Este o cumprimentou e se deteve a conversar. Ao ver que ele abanava as orelhas o tempo todo, o leão disse: “O que há com você? Por que não sossega um pouco essa orelha?”. E o elefante, que justamente naquele momento estava com um mosquito voejando ao seu redor, respondeu-lhe: “Você está vendo esta coisa minúscula, este zumbidor? Se ele entrar no buraco do meu ouvido, estou morto!”. E o leão tornou: “Ora! Por que eu, que sou o tal, deveria morrer, se sou muito mais sortudo que o elefante, uma vez que o galo é bem mais que um mosquito?”.

Você está vendo a força que tem o mosquito, a ponto de amedrontar até um elefante!

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 312-313

Esopo 215

O leão que tinha medo do rato

Um rato corria pelo corpo de um leão adormecido. Então ele despertou e começou a contorcer-se em todas as direções, tentando encontrar quem o estava afrontando. Nisso, uma raposa o viu e começou a insultá-lo, pois ele, que era um leão, tinha medo de um rato. Ele respondeu: “Não fiquei com cisma do rato. Mas espantou-me que alguém tivesse o atrevimento de correr sobre o corpo de um leão adormecido!”.

A fábula mostra que os homens sensatos não desdenham nem mesmo as coisas modestas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 314